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quarta-feira, 12 de junho de 2013

2406 - os Tamoios tomam o poder 1


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O BISCOITO MOLHADO
                          Edição 4206                             Data:  11  de Junho  de 2013
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A TAMOIO NA ROQUETTE PINTO
PARTE I

“Bom dia, senhores ouvintes...”
Ao ouvir a voz do Dieckmann anunciando o início do Rádio Memória desse domingo, não tive dúvidas: deu uma espécie de golpe de estado e tomou o governo. Não estava sozinho, contou com a ajuda do José Maurício que, até então, se limitava a ler as crônicas do Fernando Milfont, na pausa para meditação. O Sérgio Fortes até previra a intenção do Dieckmann quando disse que ele, já na primeira vez que lá fora como convidado, tentou assumir o programa.
Os dois golpistas tentaram enganar os ouvintes, informando que o Sérgio Fortes viajara para Porto Alegre atrás de cerveja e que o Jonas Vieira estava com problemas de intestino. Eles, na certa, se encontram presos, incomunicáveis e o Estúdio Jonas Vieira se chama, agora, Estúdio Dieckmann, com candelas e tudo.
Para mostrar que tudo passaria a ser diferente, transformaram a Rádio Roquette Pinto em Rádio Tamoio, com o mérito de não deixarem de incorporar o passado no presente. Cabia ao José Maurício discorrer sobre os programas da extinta rádio, em que trabalhou e ao Dieckmann  falar como ouvinte assíduo dessa emissora. Evidentemente que ele não se reteve só nisso.
-A Tamoio quebrou um paradigma, arejou sobejamente a rádio musical.
Às palavras do Dieckmann, José Maurício informou que o Peter, encarregado de pôr no ar as gravações, estava nas carrapetas.
-Carrapetas, hoje é deslizante ou outro nome... - acrescentou.
Em seguida, entrou no assunto Rádio Tamoio, com mais objetividade, anunciando o programa de domingo à noite, 19 horas, “Boa Noite, Mister Long Playing.” O prefixo era a gravação com a orquestra de Ray Conniff, The Way you Look Tonight, que nós escutamos, naquela manhã dominical, depois que o Peter acionou as carrapetas ou deslizantes, não sabemos.
-Não havia adolescente que não sintonizasse a Rádio Tamoio. - vibrava o Dieckmann.
-Sérgio Fortes – prosseguiu – viajou para Porto Alegre, seguindo a minha indicação; foi para o Ponto da Cerveja, onde fica a Sala Dieckmann.
Sala, estúdio... No seu tempo de Departamento de Marinha Mercante, criou o Fumódromo Dieckmann, embora só tivesse fumado lá apenas uma vez, um charuto cubano, quando o seu primeiro neto nasceu.
José Maurício anunciava agora o programa “Músicas na Berlinda”. E o prefixo Wedding in Monaco, com a orquestra de Ray Block, foi ao ar.
-É uma verdadeira operação resgate que nós estamos fazendo.
Eis uma palavra que o Sérgio Fortes já frisou que não gosta, quando é usado no sentido de recordação, por considerá-la inexata, um clichê tão usado atualmente, mas quem mandava agora era o Dieckmann.
E a operação resgate continuou:
-A Rádio Tamoio, a Rádio Tupi e a TV Tupi, muitos não sabem, pertenceram aos Diários Associados.
-Isso.
-No mesmo prédio...
Nesse momento, José Maurício interveio:
-As Rádios Tamoio e Tupi sim, ficavam no mesmo prédio, já a TV Tupi ficava na Urca. Futuramente, a imensa discoteca da Tamoio foi para o local da TV Tupi. Aquilo era um Maracanã cheinho (sic) de discos de 10 polegadas de 78 e 33 rotações por minuto, de 11 polegadas... Não podia haver um arranhão neles, se houvesse, voltavam ao fabricante.
Para que tudo não ficasse voltado para a extinta estação de rádio, foi combinado que Dieckmann solicitaria uma e outra música, e ele pediu, primeiramente, uma marcha do carnaval de 1940: “Aurora”, de Mário Lago recomendada pelo amigo César Campello.
-A gravação que eu trouxe é com a dupla Joel e Gaúcho.
E não perdeu a piada:
-Essa dupla é parecida com a outra, Jonas Vieira e Sérgio Fortes; fazem tudo juntos, até faltam juntos...
Depois, eles traçaram o perfil psicológico da Aurora.
-Ela poderia ter “madame” antes do nome... Ar refrigerado!... - ressaltou o Dieckmann as mordomias que Aurora desprezou para não ser sincera.
-Ar refrigerado em 1940?!...- mostrou-se dubitativo o José Maurício.
Bem, o calor de janeiro deste ano foi tão chamuscante, que procurei saber o nome daquele que merecia meus agradecimentos efusivos e descobri: Willis Carrier, ele inventou o ar condicionado em 1902.  Como o modelo econômico do Brasil foi retrógrado por décadas e mais décadas, foram poucas as importações e, por isso, 38 anos depois, o ar condicionado era ainda artigo de luxo por aqui.
E a programação da Rádio Tamoio voltou, agora com “Revista Norte-Americana”, programa vespertino de 2ª a 6ª feira. O prefixo era Música Pan Americana, com a orquestra de Charlie Burnie.
Em seguida, outro programa, “Bom Mesmo é Música”. Ouvimos, assim, o prefixo The Strings of my Heart, com o trompetista Les Elgart e a sua orquestra dançante, Zing Went que, numa tradução livre do alemão para o português, significa “Fui eletrizado!”. José Maurício perguntou se a Branca dançou muito com The Strings of my Heart.
-O balanço é tanto, que ela deve ter rebolado muito. - respondeu.
Depois desse comentário, Dieckmann se recuperou com o pedido que, para mim, foi o melhor desse domingo sem os titulares do Rádio Memória: “Chovendo na Roseira”, de Tom Jobim, com o sexteto BR6, que canta a capela.
-Pertence à Bossa Nova, mas, eu diria que não é bem Bossa Nova.
De fato, é a composição de Antônio Carlos Jobim em que ele está mais impregnado da influência de Claude Debussy. Uma jóia elaborada por notas musicais e palavras.
O sexteto foi tão competente na difícil missão de interpretá-la, sem ajuda de instrumentos, que Dieckmann nomeou um por um: Crismarie Hackenberg, Deco Fiori, Marcelo Caldi, Auguste Ordine, Simô e Naife Simões.
Chegou, então, a “Pausa para Meditação”, crônica de Fernando Milfond na empostada voz do José Maurício.
-Pausa para meditação como sói acontecer, diz sempre o Sérgio Fortes. - gracejou o Dieckmann.
O tema a ser meditado era a Teoria da Relatividade. O próprio Einstein dissera que depois de os matemáticos explicarem a sua teoria, ele não entendeu mais a sua descoberta.  Se Einstein considerou as fórmulas mirabolantes, imaginem eu. No entanto, na crônica de Fernando Milfont, tudo parecia simples; era uma espécie de “Tudo o que você gostaria de saber sobre a Teoria da Relatividade e tinha vergonha de perguntar.”
E o término da crônica, e de qualquer outra coisa, foi a bomba atômica, porque Einstein demonstrou que a energia é igual à massa multiplicada pela velocidade da luz ao quadrado: E=MC².
-Sérgio Fortes tem uma excelente piada com a bomba atômica. Ele contará, quando voltar.
Certamente era humor negro.


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