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terça-feira, 30 de agosto de 2011

2001 - Ocaso do cantor

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3831 Data: 17 de agosto de 2011

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60ª VISITA DOS ESCRITORES À MINHA CASA

Sérgio Fortes não se conformava com o fato de o Mario Del Monaco não ter dedicado alguns parágrafos, na sua autobiografia, às verdadeiras joias da Gabriella Besanzoni.

-É verdade, Del Monaco, que a mansão onde vivia a Gabriella Bensanzoni, hoje o Parque Lage, era extensa, mas, ainda assim, os Isotta- Fraschini dela ficavam à vista, pois não era um, nem dois, havia mais.

-Sim, o marido dela era armador; tinha uma fortuna.

-Quando Henrique Lage morreu, o presidente do Brasil, Getúlio Varfas, não permitiu que ela, uma estrangeira, herdasse os bens do industrial brasileiro, assim, a Navegação Costeira foi encampada pelo estado...

-E aquela mansão se transformou em parque, pelo que vocês já disseram. - interrompeu-me o tenor.

-Na semana em que você morreu, Mário Del Monaco, o programa “Ópera Completa”, de domingo, da Rádio MEC, agendou, em sua homenagem, o “Otelo”, de Verdi. Eu até me atrasei para chegar ao aniversário da minha sobrinha, porque tinha de ouvi-lo até a última nota emitida por você.

-Gracias.

-A sua voz fenomenal enriqueceu a arte da música; a sua e a de Beniamino Gigli, para citar duas. - manifestou-se o Sérgio Fortes.

-A voz do Gigli soava como um violino, a minha, como uma trombeta.

-O Sérgio Fortes, numa época da vida dele, pensou em ser tenor. - revelei.

-E por que não pisou os palcos dos grandes teatros do mundo?... Seu pai foi um barítono como poucos.

-Justamente meu pai, ao saber da minha pretensão, colocou a minha voz sob rigoroso teste; tive de emitir notas dificílimas... Minha garganta foi submetida a um sacrifício tão grande que, no dia seguinte, eu não conseguia falar. Desisti, então, de ser cantor.

-Eu atravessei mil dificuldades, no início, até encontrar a minha verdadeira voz.

-Del Monaco, eu já ouvi uma gravação em que você cantava no registro de baixo.

Ele sorriu às minhas palavras, e acrescentou:

-No registro de barítono, cantei inúmeras vezes. Apresentei-me em várias récitas de “Os Palhaços” de Leoncavallo, cantando o Prólogo, como barítono, evidentemente, e, depois, como Canio, o tenor.

-Como dizia o meu amigo Zé Maria, que assistiu a uma dessas suas apresentações: “Uma façanha!” - aparteou o Sérgio Fortes.

-Apesar da sua voz heroica, não me desagradava ouvi-lo nas óperas de Puccini. - manifestei-me.

-Puccini sofreu um grave acidente de carro em 1903; quebrou a perna e ficou meses numa cadeira de rodas.

-Não perdeu a inspiração com o acidente. - comentou o tenor depois dessas palavras do Sérgio Fortes.

-E os grandes artistas da ópera da sua época, Del Monaco? - perguntei-lhe.

-Ramon Vinay? - especificou o Sérgio Fortes.

-O tenor Ramon Vinay era um grande senhor do palco e da vida. Cuidava da indumentária com uma atenção minuciosa. Era inteligentíssimo e versátil. Lembro-me que em Dallas e em Nice interpretou o papel de Iago como barítono, enquanto eu fazia a parte de Otelo. Considerava-se um estudioso da ópera e foi um dos poucos estrangeiros capazes de aventurar-se no alemão, em Bayreuth, onde cantou o Tristão e Isolda na língua de Wagner.

-E Richard Tucker?- prosseguiu o Sérgio Fortes.

-Tucker era um judeu americano, gorducho, pequeno, de aspecto um pouco engraçado, mas era um cantor muito musical, de voz extremamente fácil, que se estendia por um vastíssimo repertório. Possuía uma técnica muito segura, que nunca lhe permitia comprometer uma récita. Na época da minha chegada a Nova York, era o primeiro tenor lírico do Metropolitan Opera House.

Entusiamado com a recordações, Del Monaco prosseguiu:

-Não posso esquecer-me, tampouco, de citar alguns entre os maiores colegas italianos da minha época; Gino Bechi, por exemplo, um artista especial, mestre do bel canto e da cena; Tito Gobbi, o insuperável Iago, refinado cantor-ator; Cesare Siepi, com uma esplêndida voz. E, com muita saudade, Ettore Bastianini, uma das mais belas vozes de barítono desse pedaço de século, um raro exemplo de dicção e de bel-canto, revelados através de uma voz de excepcional beleza.

As lembranças também afloraram em mim, e eu o interrompi.

-Você falou no Cesare Siepi... Ouvi, pela Rádio Ministério da Educação e Cultura, o Mefistófeles, de Arrigo Boito, que ele cantou aqui, no Teatro Municipal, no início da década de 60. A ária da Margarida, L' altra notte in fondo al mare, no terceiro ato, foi cantada de modo tão sublime pela Magda Olivero, que a plateia foi levada ao delírio. Todos nós estávamos maravilhados. Cesare Siepi, enciumado, arrumou as malas e abandonou a temporada lírica no meio.

Sérgio Fortes não perdeu a piada, relacionando a voz da magnífica soprano com as agências de turismo, enquanto Del Monaco continuava na apreciação do desempenho dos seus colegas.

-Na Aída regida por Cleva, cantou comigo, naquela abertura da temporada do Met de 1951, Zinca Milanov. Uma cantora clássica, do estilo do século passado, gorda como uma beldade barroca. Era a típica prima-donna que fazia questão de manter a sua posição e que não aceitava nem conselhos nem interferências. Aborrecia-se se alguém obtinha mais sucesso do que ela. Naqueles anos, antes da aparição de Callas e da Tebaldi, era a primeira diva absoluta do Met.

-E Maria Callas?

A pergunta da Sérgio Fortes provocou uma pausa apreensiva, pois ela passou pelos maiores palcos do mundo como uma força da natureza.

-Conheci-a em Roma, logo que chegou da América, em casa do maestro Tulio Serafin, e lembro-me de que a ouvi em alguns trechos da Turandot. Tive dela uma impressão não muito positiva. Claro, a recém-chegada tinha muita facilidade vocal, mas a sua gama musical não me parecia homogênea. O centro e os graves eram vagamente guturais e os superagudos ligeiramente oscilantes. Mas com o passar dos anos, Maria Callas soube transformar aqueles defeitos em qualidades. Tornaram-se parte integrante da sua personsalidade artística e, de certa forma, aumentaram a sua originalidade de intérprete. Maria Callas foi capaz de impor o seu estilo.

-Vocês se estranharam numa récita da Norma no Scala de Milão...- provoquei.

Ela me chamou de “histérico”, e eu repliquei com “louca furiosa”, depois de um duelo de superagudos, que agradou o público, mas deixou o maestro Antonino Votto irritado.

Como eu lera as memórias do tenor, traduzido pela sua amiga brasileira, Ilza Correa, fui adiante:

-Não ficou só nisso...

-Ela continuou agressiva, e eu, então, lhe disse: “Vê se te acalmas que daqui a pouco chega a Tebaldi e te bota no teu lugar”; ela desferiu, em represália, um pontapé, mas não me atingiu.

-Del Monaco, e as suas últimas apresentações no Brasil? - quis saber o Sérgio Fortes.

-Eu vim para uma turnê com o San Carlo de Nápoles. Cantei no Rio de Janeiro e aluguei um carro para ir a São Paulo, onde me apresentaria. Rina, a minha mulher, dirigia. Ela esqueceu, infelizmente, a carteira internacional. Na estrada, fomos parados duas vezes em pontos de inspeção policial. Havia policiais por todo canto, porque o embaixador americano fora sequestrado. Na terceira parada, a coisa complicou, além do problema com a carteira de motorista da Rina, cismaram que eu era subversivo. Como eles não aceitavam a minha argumentação, soltei a voz. Cantei o Sole mio a plenos pulmões. Eles se convenceram que eu não era subversivo e nos deixaram seguir viagem.

-Eles sabiam que nenhum subversivo brasileiro aprendeu a cantar. - não perdeu a piada o Sérgio Fortes.

-Parece que o grande tenor Lauro Volpi, que escreveu “Vozes Paralelas” está chegando.- disse Del Monaco, volatizando-se à nossa frente.

Com a saída do grande artista, a palavra passou para o Sérgio Fortes. Em oposição ao “Prólogo” de “I Pagliacci”, ele era o “epílogo”:


-Fiquei em êxtase com essa visita nas edições do Biscoito Molhado. Misturado com meu ídolo maior Mario Del Monaco! A mais impressionante voz de tenor do século XX !

Quando Del Monaco cantou pela primeira vez no Municipal do Rio o tamanho de sua voz deixou a platéia atordoada. Se não me engano foi numa Aída.

No início dos anos 50 cantou um memorável Guarany com o velho. Que sempre repetia que passara tres dias com o ouvido zumbindo depois de ter seus ouvidos inflamados durante mais de duas horas por aquele vozeirão descomunal. Já no final da carreira de Del Monaco, os dois voltaram a se encontrar no Teatro Massimo De Palermo. Papai cantaria um Guarany com o elenco do Municipal de São Paulo. Sabendo que Del Monaco participava daquela temporada, fêz um enorme esforço para chegar ao Teatro a tempo de assistir a última apresentação do grande Mario em " I Pagliacci". Claro que Del Monaco, com muita idade, era uma sombra do fenômeno vocal que assombrara o mundo nas décadas de 50, 60 e 70. Terminado o espetáculo, Paulo Fortes invade o camarim do amigo. Cogita abraça-lo com todo vigor. Mas é contido por um gesto do tenor. Antes do abraço impõe-se indagar do amigo Fortes: " Comme stai il Vecchio Leone ? ". A resposta de Paulo Fortes não podia ser outra: "Magnífico ! " " Insuperável ! " Melhor do que nunca ! " . Obtida a resposta, Del Monaco finalmente abraça o amigo. Exclamando a plenos pulmões: "Mentiroso filho da puta !!! "


2000 - passarinho que dorme com morcego(*)

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3830 Data: 14 de agosto de 2011

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59ª VISITA DOS ESCRITORES À MINHA CASA

-Carlos, eu me sinto muito feliz com o convite que você me fez para ajudá-lo a receber Mario Del Monaco, mas... - titubeou o Sérgio Fortes.

-Por favor, prossiga. - pedi.

-... Mas na sua casa só baixam os escritores e Mario Del Monaco, com a sua voz excepcional, foi tenor.

-Relaxe, Sérgio, ele escreveu um livro de recordações, “Minha Vida, Meus sucessos”, o que o qualifica a frequentar a nossa sessão espírita.

-Vindo de Copacabana para Del Castilho, vi o Dieckmann no Aterro do Flamengo.

-Por que não o trouxe para cá, Sérgio?

-Ele disse que não perderia de jeito algum o torneio de aeromodelismo que estava acontecendo lá, no Aterro.

De súbito, uma robusta voz chegou aos nossos ouvidos:

-Morir! tremenda cosa! ...

Carlos, é a voz do Mario Del Monaco cantando “A Força do Destino”, de Verdi, no registro de barítono.

Em segundos, o antigo ídolo da cena lírica se materializou à nossa frente.

-Desculpem-me por não usar o figurino do Otelo nesta visita. - disse ao acomodar-se na poltrona que lhe ofereci com um gesto.

-Soube que a sua pretensão era ser enterrado com a vestimenta do Otelo, de Verdi. - falei.

-Sim, o além seria para mim mais um palco a ser enfrentado e foi com essa ópera que alcancei os meus maiores triunfos.

-Eu sou filho do Paulo Fortes, que estudou canto com a legendária Gabriella Besanzoni Lage. Papai me contou que, certa vez, na casa dela, você deu uma espécie de recital, deixando-o quase surdo tamanho o seu vozeirão.

-Lembro-me bem, foi em 1947, quando bati o meu recorde, participando de 107 récitas em um ano. Quando estive no Rio de Janeiro, fui convidado, com toda companhia, pela Gabriella Besanzoni, que havia cantado “Carmem” com Caruso, e agora era esposa de um armador brasileiro, a ir à sua casa. Casa?!... Era uma mansão das mil e uma noites, onde jantamos. Os bifes eram colossais, o meu correspondia à ração de dois meses de carne, na Itália, durante a guerra.

-A riqueza do contralto italiano, que casou com Henrique Lage, o impressionou? - perguntei.

-Tinha joias inacreditáveis. Uma vez perdeu no palco um diamante de doze quilates e não se preocupou com o fato. Por outro lado, era compreensível: ela possuía dois brilhantes entre os maiores do mundo e conjuntos de esmeraldas e rubis que trocava todas as noites, de acordo com o espetáculo e com o vestido.

-Se você admirasse carros, como Giacomo Puccini, consideraria os Isotta-Fraschini dela como a sua maior joia, e eram três. - interveio o Sérgio Fortes.

-Del Monaco, não foi nessa récita de 1947 em que você cantou “O Guarani” de Carlos Gomes? - perguntei.

-Sim; imortalizaram-me com uma gigantesca fotografia, um pouco engraçada, vestido – ou melhor, despido – como entrei em cena - no museu do Teatro Municipal.

-Os tenores que personificam o Peri, desde o barbudo Villarini, da estreia da ópera, vestem um figurino mais próximo de um cacique asteca. Você, de tanga, virilha à mostra, mostrou o índio brasileiro de verdade.- comentei.

-Eu tinha 65 quilos, sem dobras de gordura pelo corpo...

-Quando estive em Buenos Aires, fiz questão de me hospedar no mesmo hotel em que você se acomodara décadas antes. Era uma maneira de eu demonstrar mais uma vez a minha admiração pela sua lendária voz. - reverenciou-o o Sérgio Fortes.

-A minha apresentação no Teatro Colón, em 1950, foi um divisor de águas para mim. Buenos Aires me acolheu como se eu fosse um de seus concidadãos retornando à pátria. Também ali, vieram-me convites, recepções e asados (churrascos) nas ricas casas de campo dos criadores de gado. A Argentina era, então, um país rico ainda não tocado pelos problemas sociais e econômicos destes últimos anos. O público de Buenos Aires era particularmente exigente. Era um pouco como cantar em Parma. Os espectadores gostavam do “matiz”, das nuanças na voz e não se deixavam enganar facilmente. Era diante desse público de gosto tão apurado que eu me arriscava com a ópera mais comprometedora do repertório de tenor, Otelo, de Verdi.

-Mas você não vinha estudando o papel?... Não ouviu todas as gravações dos seus antecessores?- indagou Sérgio Fortes.

-Sim, mas não se esqueça que os grandes Enrico Caruso e Beniamino Gigli evitaram, cuidadosamente, cantar essa ópera no palco.

-Mais recentemente, podemos citar o Luciano Pavarotti; cantou uma só vez o Otelo, e num estúdio de gravação. - lembrei.

-Bem, às vésperas da minha apresentação em Buenos Aires, fui tomado por uma crise de insegurança. Vinha-me sempre à mente o problema técnico que o Otelo exige. Uma ópera que, por instinto, sempre se enfrenta exigindo o máximo da voz; uma ópera que requer voz, voz e interpretação. O Otelo estava no limite das possibilidades humanas e disso eu tinha plena consciência. O meu físico, já fortalecido, mas ainda não na forma ideal, resistiria àquele compromisso? Pedi que convocassem o tenor substituto, mas o maestro Antonino Votto me convenceu a enfrentar as feras.

- Foi um triunfo a sua apresentação. - interveio o Sérgio Fortes.

-A crítica de Buenos Aires escreveu: “O Otelo de Del Monaco ficará escrito no Livro de Ouro do Teatro Colón”. No mês seguinte, voei para o Rio de Janeiro e repeti a façanha.

-Apesar do seu destaque em outras óperas, você ficou também conhecido como o maior Otelo de todos os tempos. (veio-me à mente Francesco Tamagno, o tenor que estreou no papel, em 1887, mas como Verdi ficou contrariado com a escolha, mantive o “maior”).

-Mas foi em Viena, em 1957, que bati um recorde: cantei Otelo com Herbert von Karajan no Staatsoper. A atração de tão grande maestro e de um elenco igualmente notável transformou a récita num acontecimento histórico. Diante das bilheterias, formaram-se filas intermináveis. Havia pessoas que tinham trazido colchonetes, mesas, tabuleiros de xadrez, baralhos, radinhos de pilha, comida e, naturalmente, garrafas de cerveja. Era um grande acampamento que durou dois dias. Dormiam, comiam, revezavam-se nas filas, para não perder a chance de assistir ao espetáculo. E que, no final, ficaram com a sensação de terem gastado bem seu tempo e dinheiro. Quando a cortina caiu sobre a última cena, fomos chamados cinquenta e sete vezes. Cantores, maestro, comprimários, algumas vezes toda a companhia, não faziam outra coisa senão aparecerem no palco, retirarem-se e serem obrigados a apresentar-se novamente. Um triunfo memorável e absoluto.

(*) O título completo é: “passarinho que dorme com morcego acorda de cabeça pra baixo”. Obviamente, o distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO se refere ao primeiro passarinho convidado pelo morcegão para uma sessão espírita. E mais não escrevo, para não ter que inventar outra história.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

1999 - cartas, poemas e violinistas

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3829 Data: 12 de agosto de 2011

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CARTAS DOS LEITORES

-Vinícius de Moraes foi tão amigo assim do Manuel Bandeira, como eu depreendi da visita que o poeta e letrista fez, recentemente, à casa do redator do Biscoito Molhado? Olavo

BM: Sim, e Vinícius de Moraes contou mais sobre essa convivência ao seu biógrafo, José Carlos Pecci, irmão do Toquinho. Leia esse trecho que reproduzimos da sua biografia:

-“Vi-o pela segunda vez no Salão de Belas Artes. Fez-me as mesmas festas, perguntou pelo violão, falou vagamente em se marcar alguma coisa. Uma noite saímos juntos. Grande noite para mim e Manuel Bandeira, paternal, me levou ao cinema, me levou à Americana para tomarmos um malted milk, depois me levou ao Beco, onde subi sete andares num elevador vermelho. Conheci seu quarto, às vezes para o poeta um lugar de tristezas e que, para mim, se tornou um lugar de sossego. E banhei-me no verso exemplar de “Estrela da Manhã”, ainda inédito, que o poeta leu para mim, ou melhor, que me jogou em cima, com aquele seu modo brusco de ler poesia.”

Nós, que já ouvimos as suas declamações pela Rádio MEC, sabemos desse modo brusco do Manuel Bandeira recitar. Mas vamos prosseguir com as palavras do Vinícius de Moraes:

-“Não acho a minha poesia parecida com a do Bandeira. O que houve, por parte dele, foi uma influência vital, o oposto do que representava a Faculdade de Direito. Era um homem mais ligado à vida, ao cotidiano, que fazia uma poesia mais simples, se bem que formalmente admirável. Para mim, a grande dificuldade foi aceitar as palavras novas. Estava muito ligado às retumbantes, aquela antiga terminologia claudeliana, metafísica e bem soante. Aquela história de achar que estava com a graça pairando sobre mim, que era o “inquilino do sublime”, como dizia o Otto Lara Resende.”

-O André, citado como um dos quatro filhos do Otto Lara Resende, é o economista? Alberto

BM: Sim; quando ele era um menino de dez anos, Nélson Rodrigues escreveu uma crônica em que dizia que o Otto tinha um filho tão inteligente, chamado André, que seria presidente do Brasil. Como a inteligência dele era ainda maior do que o obsessivo amigo do Otto imaginava, André assessorou, direta ou indiretamente, três presidentes da República num ponto fundamental: o extermínio da hiperinflação. André Lara Resende não estava só, atuou com uma equipe de cabeças pensantes, ligando-se principalmente ao Pérsio Arida. O primeiro presidente assessorado foi o José Sarney que, colocando os conchavos políticos acima do racionalismo dos técnicos, jogou tudo por água abaixo. O segundo foi o Itamar Franco, que tinha um cacoete populista, porém o coordenador da equipe do André era o ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso que, com o seu poder de convencimento junto ao presidente, impediu que o desastre se repetisse. Assim, o Plano Real não se transformou no Plano Cruzado II, ou Plano Cruzado III, se considerarmos nesse interregno o Plano Bresser. O terceiro presidente que ele assessorou?... É preciso falar?...

-O Biscoito Molhado número 2000 será dedicado às crianças pobres do Brasil? Raimundo

BM: Caro leitor, o número 2000 do nosso jornalzinho teimoso chegou às bancas em 2003, meses depois de ser empastelado. Com o rumoroso empastelamento, passamos a ver o teatro político com outros olhos: os colegas de trabalho perderam o papel de protagonistas e se tornaram, na melhor das hipóteses, coadjuvantes; com isso, iniciamos uma nova contagem partindo do zero, que, agora, se aproxima do número 2000.

Vez ou outra, aparecem um e outro saudosistas para dizer que, voltando às abordagens dos “bons tempos”, o Biscoito Molhado não teria só um dia de loucura por semana, o sabadoido, e sim cinco: a segunda-doida, a terça-doida, a quarta-doida, a quinta-doida e a sexta-doida. E mais: a minha casa não precisaria de sessões espíritas com escritores, pois o pessoal da Marinha Mercante não me deixaria sem assunto.

Esses mesmos saudosistas me remetem à ditadura militar, quando uma extensa turma, entre um copo e outro de chope, vibrava com os artistas da música popular brasileira, do teatro e do cinema que contestavam o regime militar. Os contestadores amargavam exílios, prisões e torturas, enquanto essa turma festiva não saía do papel de torcedores. Era cada um deles, para usar uma frase da sabedoria do PSD – partido fundado por Getúlio Vargas - “Tiradentes com o pescoço dos outros”.

Saudosistas do Biscoito Molhado da fase pré-empastelamento: sejam Tiradentes com os seus próprios pescoços.

-Por que o Biscoito Molhado não dedica uma edição aos artistas de rua, como o saxofonista da Estação Carioca do metrô? Vicente

BM: Falando do saxofonista da Estação Carioca do metrô, certa vez, de volta do trabalho, eu me aproximei dele, que tocava “A Pantera cor de rosa”, de Henry Mancini. À proporção que as notas musicais, que ele ia soprando chegavam aos meus ouvidos, a pantera se tornava vermelha, azul, amarela, roxa, lilás, etc... devido à sua desafinação.

Houve uma época que eu já sabia que às quatro e meia da tarde, a caminho de casa, as suas notas, em desacordo com a partitura musical, machucariam os meus ouvidos.

Um dia, porém, depois de almoçar com uma amiga num restaurante do Edifício Central, pisei a calçada da Avenida Rio Branco e ouvi um agradável som de saxofone. Segui a música, como os ratinhos melômanos da Flauta de Hamelin e me vi na entrada da Estação Carioca do metrô. E quem tocava?... Ele mesmo. Não foi difícil concluir que, àquela hora, a bebida ainda não danificava a embocadura do saxofonista.

Uns quatro anos atrás, o jornal Washington Post propôs ao violinista Joshua Bell, um dos mais conceituados do mundo, que dias antes se apresentara num teatro de Boston, por 100 dólares o preço médio, que tocasse no metrô da cidade de Washington, passando-se por uma pessoa que esmola. Ele aceitou o desafio e, vestindo calças jeans e uma camisa simples, foi para o metrô às 7 horas da manhã, horário de maior movimento. Tocou Bach, no seu Stradivarius (violino avaliado em 3,5 milhões de dólares), e mais de mil passageiros passaram por ele apressadamente. Três pessoas se detiveram e, em seguida, seguiram adiante. Apenas uma senhora o reconheceu de toda aquela gente.

Vi a notícia e, dias depois, li uma inspirada crônica da Martha Medeiros sobre o caso. Ela escreveu um parágrafo que merece a nossa reflexão.

-”Esta história do violinista demonstra que não estamos preparados para a beleza pura: é preciso um mínimo de conhecimento para valorizá-la. E demonstra também que temos sido treinados para gostar do que todo o mundo conhece. Se uma atriz é muito comentada, se uma peça é muito badalada, se uma música é muito tocada no rádio, estabelece-se que elas são um sucesso e ninguém questiona. São consumidas mais pela insistência do que pela competência, enquanto que competentes sem holofotes passam despercebidos.”

No parágrafo seguinte, Martha Medeiros revela que gostaria de ter circulado na estação do metrô de Washington no momento em que Joshua Bell tocou. Ela queria testar a sua “capacidade de encantamento sem estímulo prévio” e saber se pararia para ouvir ou passaria apressada.

A dúvida da Martha Medeiros também me tomou. Eu, que segundo os amigos que me veem na rua, não ando, corro, ficaria paralisado pela arte de um “artista de rua”? - perguntei-me também.

Agora, que o filme com a experiência artística de Joshua Bell no metrô chegou a mim pela internet, e eu vi, não tenho a menor dúvida: eu pararia.

Só não lhe daria esmola.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

1998 - Otto Lara 2

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3828 Data: 11 de agosto de 2011

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58ª VISITA DE ESCRITORES À MINHA CASA

- Eu li, Otto, um artigo seu, em um jornal, sobre um confronto de vocês quatro, “adolescentes definitivos”, com o então Prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek. Deixe-me ver se a memória não me trai... Vocês estavam na porta de uma confeitaria, quando passou o prefeito, do outro lado da calçada. Aproveitaram a oportunidade e o apuparam estrepitosamente. Juscelino atravessou a rua, dirigindo-se a vocês, o que os desconcertou, porque não esperavam essa reação. Ele conversou, então, com todos, da maneira mais pacífica e respondeu a todas as queixas. Quase que sai de lá aplaudido, como nas óperas. Foi isso?

Otto Lara Resende sorriu, antes de responder:

- Você mesclou reminiscência com fantasia, mas, quando escrevi, os fatos também vieram revestidos de um pouco de imaginação, pois muitos anos haviam transcorrido. Eu, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino estávamos na Leiteria Nova Celeste, discutindo política e literatura, a uma mesa, quando fomos surpreendidos com a presença de Juscelino Kubitschek.

- Como um Napoleão da simpatia, ele tirou proveito do fator surpresa... - precipitei-me.

- Por pouco tempo... Demonstramos nosso desgosto com o Estado Novo. Hélio Pellegrino era o mais inflamado, discursava sem conceder um aparte a Juscelino Kubitschek e com isso não permitia submeter os assuntos a contraditório. Em dado momento, Juscelino disse: “- Entrego os pontos!”. E se foi...

- Não houve aplausos, mas a relação com Juscelino não ficou envenenada a partir daí?...

- Claro que não. Juscelino, como prefeito, promoveu a “Semaninha”, uma espécie de feira cultural, uma miniatura da Semana de Arte Moderna de 1922. Na “Semaninha”, estabelecemos laços de amizade com Oswald de Andrade e outros membros do grupo paulista.

- E Mário de Andrade?

- Ele já se correspondia com Fernando Sabino.

- Você não se descuidava da formação acadêmica?

- Formei-me em Direito e, em 1945, fui para o Rio de Janeiro, onde comecei como repórter. Eu era também funcionário público, desde 1939, quando me convidaram para trabalhar no Serviço do Imposto Territorial da Secretaria de Finanças de Minas Gerais.

- E sua obra literária, Otto?... Nélson Rodrigues não se conformava que você fosse um gênio da conversação e escrevesse tão pouco.

- Calma; eu escrevi, em 1952, “Lado Humano”, um livro de contos que minha mulher, Helena, leu antes de sua publicação, pela “Editora A Noite”.

- Helena era filha de Israel Pinheiro e neta do ex-Governador de Minas Gerais, João Pinheiro.

- Foi um casamento para toda vida; quarenta e quatro anos. Tivemos quatro filhos: André, Bruno, Cristina e Heleninha.

- E seu segundo livro, que saiu cinco anos depois, “Boca do Inferno”, provocou uma convulsão na TFM - Tradicional Família Mineira.

- Embora já estivesse com trinta e cinco anos, meu pai, de Belo Horizonte, me passou, por causa disso, uma reprimenda por carta. O advogado Sobral Pinto, militante católico, também expressou seu desagrado com meu livro. Sob impacto dessa insatisfação, demiti-me da Manchete, onde passara de redator-chefe a diretor, e fui para Bruxelas, com minha família, exercer o cargo de Adido Cultural na Embaixada brasileira.

- Em sua ausência, a filial carioca da TFM cobriu de fezes a porta de seu apartamento.

- Soube dessa lastimável agressão pelo Autran Dourado.

- Não quis, então, voltar mais para o Brasil?

- Em 1960, quando terminou o mandato presidencial de Juscelino Kubitschek, , Helena me convenceu a cancelar o contrato já assinado com a UNESCO e a pisar de novo o chão do Rio de Janeiro. Eu me sentia perdido, estava deprimido, Já resumi, em uma frase, meu estado de espírito.

- Mas você sempre foi um jornalista! - argumentei.

- Então, aqui vão mais duas frases minhas: “Sou jornalista, especialista em ideias gerais; sei alguns minutos de muitos assuntos; e não sei nada.” e “Tenho para mim que sei, como todos os brasileiros, os três primeiros minutos de qualquer assunto.”

- Sim, Otto, mas aqui, em 1960, você foi para a Procuradoria-Geral do Estado do Rio de Janeiro.

- Fui para a Procuradoria, como advogado substituto. O destino me levou para o Banco Mineiro de Produção, onde exerci o cargo de diretor, nomeado por Magalhães Pinto, Governador de Minas.

- Ele acabara de vencer Tancredo Neves em uma disputa muito acirrada pelo governo do Estado. - acrescentei.

- Quando Jânio Quadros renunciou, e o país ficou à beira de uma guerra civil por causa da posse, ou não, do Vice-Presidente João Goulart, Magalhães me pediu que redigisse uma declaração em que Minas Gerais não se comprometesse com qualquer dos lados em conflito.

- Uma declaração bem “em cima do muro”? - sorri.

- Cunhei, então, a frase: “Minas está onde sempre esteve.”

- Esta frase, que é o lema de quem que se posiciona “em cima do mundo”, não é do Governador Magalhães Pinto?

- É minha, pela razão que lhe contei, ele pediu, eu a criei e ele a disse e escreveu... - sorriu.

1997 - Otto Lara

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3827 Data: 10 de agosto de 2011

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57ª VISITA DE ESCRITORES À MINHA CASA

Com a saída de Plínio Doyle, pude dedicar toda minha atenção ao recém-chegado.

- Otto Lara Resende, todos nós esperávamos que você chegasse aos noventa e quatro anos de idade, como seu pai e, no entanto, você nos deixou na flor dos setenta.

- Os números do papai eram difíceis de ser batidos; teve vinte filhos. Eu alcancei apenas o quarto filho, com muita dificuldade. Heleninha foi uma filha temporã.

- Recordo-me de sua frase: “Consegui ser avô da minha filha e pai da minha neta, eliminando a intermediação antipática do genro.”

- Eu me lembro perfeitamente do comentário do Paulo Francis, no Jornal Nacional, da TV Globo, sobre sua morte: “-Otto Lara Resende é mais um que morre de médico.”

- Faz sentido. Eu estava com problemas de coluna, mas morri de infecção hospitalar.

- A falta de cuidado nos impediu de desfrutar sua inteligência até a idade provecta.

- Qual!... Com cinquenta anos de idade, eu já dizia: “Ultimamente, passaram-se muitos anos.” Imagine se eu chegasse à casa dos noventa, como meu pai?! Diria então que, ultimamente, passaram-se muitos séculos.

- Você não vibrava de otimismo.

- Em certa ocasião, escrevi: “Não sou alegre. Sou triste e sofro muito. Dentro de mim há um porão cheio de ratos, baratas, aranhas, morcegos, escuro, melancolia, solidão.”

- Mas isso não o impediu de cultivar admiravelmente o humor por toda vida.

- O humor é a grande expressão, o melhor canal para dar notícia da vida, da nossa tragédia interior e exterior.

- Esta sua frase, quando completou sessenta anos, é um primor de humorismo: ”Hoje eu reúno duas condições que em princípio se excluem: sou careca e grisalho”.

Sorriu com a reminiscência, enquanto prossegui:

- Você não repetiu os números do estóico Antônio de Lara Resende, mas herdou uma parte acentuada de seu dom.

- Ele era professor, gramático e memorialista, além de pertencer à Tradicional Família Mineira. Fui professor, gramático e memorialista. Mas quanto à Tradicional Família Mineira...

Quando o rosto do Otto Lara Resende se crispou, eu o interrompi:

- Mais tarde, nós falaremos dessa parte desagradável... Seu pai tinha um colégio em São João del Rei que contou, como aluno, com João Guimarães Rosa.

- Como Guimarães Rosa foi o segundo colocado no concurso para o Itamaraty, que teve o Roberto Campos como nono colocado, não se pode negar que nosso colégio contribuiu com uma boa base didática.

- Como ficou o colégio depois que sua família foi para Belo Horizonte, em 1938?

- O Instituto Padre Machado também foi transferido para lá. Transcorridos alguns anos, o controle do colégio passou para os padres barnabitas.

- Havia jornalzinho, lá na escola?

- Sim, e eu era o gerente, eleito pelos meus colegas em eleição secreta. No entanto, o diretor era o Benone Guimarães, professor, que tinha a mão férrea.

- Este não foi eleito?...

- Foi imposto. Eu me desesperava, porque não reconhecia meus textos, naquilo que saía publicado no jornalzinho, tamanha a intromissão do professor.

- No entanto, a frase que você cunhou, já adulto, investe contra os revisores, não contra os copydesks.

- “O único erro humano que merece a pena de morte é o de revisão”. - citou.

- A sua vida intelectual começou e foi ao fim como jornalista, não foi?

- Sim, entrei primeiramente no jornalismo, depois, na literatura. Através do Professor Benone, tive contato com o Boletim de Ariel, uma revista literária, e com a obra de Agrippino Grieco, que me atraiu bastante. Resolvi, então, ser escritor.

- Quais foram mesmo as palavras que você escreveu sobre essa descoberta, Otto?

- “Eu estava convencido de que tinha vindo ao mundo para escrever, para lutar com as palavras, por mais vã que fosse essa luta.”

O Professor Benone lhe desvendou também o mundo machadiano.

- Eu me tornei um leitor voraz... Aos quatorze, quinze anos, talvez eu fosse mais amargo e pessimista do que Machado de Assis...

- Vem-me à mente uma crônica, Otto, de Nélson Rodrigues, que li quando adolescente. Ele falava de um amigo que dormia pensando em Machado de Assis, sonhava com Machado de Assis e seu primeiro pensamento, ao acordar, era Machado de Assis. Ao fazer a barba, tinha pendurado junto ao espelho, para ler, um texto de Machado de Assis. Fiquei intrigado, pois Nélson Rodrigues não revelou o nome desse amigo.

- Era eu, mas no estilo exagerado do Nélson.

- Voltando aos seus quatorze anos, ainda na escola...

- Aprendi Francês e já ensinava o idioma de Racine.

- Isso em 1936?!... – falei, enquanto somava quatorze com o ano de seu nascimento.

- Sim.

- Dois anos depois, você e sua família se mudam para Belo Horizonte.

- Eram os anos trinta, quando Minas Gerais ditava os rumos da cultura do Brasil. O Presidente Getúlio Vargas nomeou o mineiro Gustavo Capanema Ministro da Educação e Saúde. Este chamou Carlos Drummond de Andrade, de Itabira, para ser seu chefe de gabinete. O Ministro também se acercou do belo-horizontino Rodrigo Melo Franco de Andrade, que viria a criar o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico - IPHAN.

- E o quarteto do romance “Encontro Marcado” estava se formando, na mesma época? - perguntei.

- Eu já conhecia Paulo Mendes Campos, de São João del Rei. Em Belo Horizonte, liguei-me a Fernando Sabino, logo que nos encontramos pela primeira vez. Pouco depois, juntava-se a nós o vibrante Hélio Pellegrino. Éramos, os quatro, os “adolescentes definitivos”.

- Apesar de a cultura mineira estar no poder, vocês faziam oposição ao governo?...

- Os jovens são, geralmente, contrários à ordem estabelecida. Eu e Hélio Pellegrino, com a ajuda financeira de Afrânio de Melo Franco, publicamos e distribuímos, clandestinamente, o jornal “Liberdade”, que fazia oposição ao Estado Novo. Contamos com outros jovens promissores na redação, como Autran Dourado, Sábato Magaldi...

- Era o Otto Lara Resende, impregnado de Brasil, longe daquele que foi trabalhar na Bélgica e retornou contra a vontade. - adiantei-me.

- A Europa é uma burrice aparelhada de museus. - citou uma das frases que o fez merecedor da fama de grande frasista.

- Apesar desse meu aforismo, voltei do continente europeu, realmente, contra minha vontade.

- Depois, entenderemos o porquê disso. Mas voltemos ao período da oposição feroz de vocês ao governo. Juscelino Kubitschek tinha sido nomeado prefeito de Belo Horizonte por Benedito Valadares, então Interventor em Minas Gerais.

- De fato. O representante do satânico Estado Novo mais próximo dos nossos arroubos oposicionistas era Juscelino Kubitschek.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

1996 - torturas e discursos

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3826 Data: 9 de agosto de 2011

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MEIA-NOITE EM PARIS E MEIO-DIA NO SABADOIDO

PARTE II

O Sabadoido estava se transformando em palco de torturas mnemônicas.

- Como se chama aquela atriz escultural, que é filha de um integrante de Os Cariocas?...

- Aquela que é sapatão, Luca?...A Lúcia Veríssimo...

- Não, Claudiomiro. Eu me refiro àquela que provocou uma ereção em um ator, dentro de uma piscina gelada, às seis horas da manhã...

Lembrei-me então do filme “Rio-Babilônia” e citei o nome da Denise Dumont.

- Isso!... Denise Dumont! - vibrou o Luca.

- Ela é filha do Humberto Teixeira, parceiro do Luís Gonzaga, que nunca foi d’Os Cariocas. - disse meu irmão, como um professor que dá reprimenda na turma.

- A Lúcia Veríssimo até revelou que manteve relações com outras mulheres, mas ela não é sapatão. - contrapôs o Luca.

- A Denise Dumont produziu um documentário sobre o pai, chamado “O homem que engarrafava nuvens”. - falei.

- Produziu, porque o pai ficou em um injusto esquecimento, por causa da fama do Luís Gonzaga. - frisou meu irmão.

Fazendo justiça ao termo Sabadoido, o esforço de memória para trazer o nome da filha de Humberto Teixeira foi em vão, pois a conversa derivou para as habitantes da Ilha de Lesbos, na Grécia.

- O Vagner está organizando a Marcha do Dia do Orgulho Hétero e conta com a presença de todos. - assinalei.

Houve sorrisos, mas retruquei com seriedade:

- Um vereador do Rio de Janeiro conseguiu a aprovação do Dia do Orgulho Heterossexual.

Dissesse eu que se tratava de um político do DEM ou do PT, talvez se instalasse um debate no território do Sabadoido, mas me calei porque não sabia a que partido pertencia esse defensor das minorias, que, aliás, é um dos filhos de Jair Bolsonaro, deputado federal.

No entanto, a política passou a ser o assunto:

- O Ministério da Defesa é extremamente sensível. O Lula segurou o Nélson Jobim o quanto pôde e a Dilma coloca logo o Celso Amorim no lugar dele... - mostrou o Luca preocupação.

- A Dilma dá esporro. E o Nélson Jobim deve ter levado um. - imaginei que essa tenha sido a causa de ele ter buscado sua demissão.

- Jobim disse que a Ideli Salvati é fraquinha...

- E é fraquinha mesmo, Luca. - reforçou o Cláudio.

- E veio o Sarney, pensando que acertava as coisas, e diz que a Ideli Salvati é gordinha.

No meio dos risos, prossegui:

- Eu escutava o comentário do Merval Pereira, na CBN, com intervenções do Carlos Alberto Sardemberg e, quando este se referiu à tentativa do Sarney de colocar panos quentes, os dois caíram na gargalhada.

- Nélson Jobim se ajustava ao ambiente militar, vestia até uniforme de campanha...

Luca foi interrompido por meu irmão, que falava com a voz exaltada:

- Nélson Jobim perdeu o valor, para mim, quando colocou José Genoíno como seu assessor. Um sujeito que responde a processo no Supremo, que até foi afastado do partido...

- E logo o Genoíno!... - brilharam de malícia os olhos do Luca, lembrando a sua fama de alcaguete.

- Jair Bolsonaro fez um discurso, na Câmara dos Deputados, em que afirma que José Genoíno entregou os companheiros da guerrilha de Araguaia, sem levar sequer um tapa.

- Eu recebi o filme desse discurso pela internet. - informei.

- A única coisa boa para o Nélson Jobim, nessa história, é que ele não saiu por corrupção.

- Sim, Claudiomiro, com toda essa gente demitida por ser corrupta, ele saiu porque discordava dos métodos da Dilma.

Depois de concordar com o Cláudio, Luca se voltou para mim.

- O Jobim foi Ministro da Defesa durante todo o governo do Lula, não foi?

- Creio que sim. O Fernando Henrique criou esse ministério.

- Eu sei que foi o Fernando Henrique.

- Ele colocou o Valdir Pires como ministro. Não me lembro de outro...

- Eu também não, Carlinhos. Será que houve outro?

A nossa dúvida foi transferida para o Cláudio, que não a desfez. Depois, apurei que José Viegas, diplomata de carreira e ex-aluno do Colégio Militar do Rio de Janeiro, foi Ministro da Defesa ainda no início do governo Lula, em 2003 e 2004.

Voltei-me para o Vagner:

- Fernando Henrique Cardoso juntou os três ministérios militares em um só. Houve, antes, até rivalidades entre eles. Juscelino Kubitschek comprou, espertamente, o porta-aviões Minas Gerais, para que a Aeronáutica brigasse com a Marinha e, assim, todos não tivessem tempo para conspirar contra o seu governo.

Agora, o assunto José Genoíno tomava o lugar do ex-ministro da Defesa em nossa conversa:

- Eu, quando entrei para grupos de esquerda, avisei logo: não me digam segredo algum, porque eu não suporto dor, conto tudo.

- Esse cagão do Luca morre de medo de injeção. - comentou o Vagner. Sarcasticamente.

- E, no entanto, passou por esse atropelamento de motocicleta. - intervim.

Luca tomou a palavra:

- Sabem que um rapaz foi atropelado por uma motocicleta, agora, no mesmo lugar onde aconteceu comigo?!... Os bicheiros me contaram.

Só existe segurança mesmo no território do Sabadoido. - pensei sem nada dizer.

- Ele se encontra em estado de coma, porque bateu com a cabeça, o que não ocorreu comigo.

- Você ficou até com as marcas do pneu nas costas. - lembrei.

- Mas não bati com a cabeça.

Olhei para o relógio: meio-dia.

Olhei para o céu e concordei com o Luca: o céu, quando visto do Sabadoido, é mais bonito.

Veio-me à mente uma expressão recorrente do vice, na chapa do então candidato Lula, em 1989, o senador gaúcho José Paulo Bisol: “- Azul cerúleo”.

- Carlinhos, eu assisti a um programa que falava de Beethoven...

E Luca reproduziu o “tan-tan-tan-tan!...”.

- É o “Destino batendo à porta”. A surdez de Beethoven aumentava, e ele, então, representou com essas notas as batidas do Destino à sua porta. - falei.

Também esse era o chamado do celular do Dieckmann, que interrompeu duas aulas do Prof. Fiani, no Departamento de Marinha Mercante. - pensei, mas sem trazer esse caso à baila.(*)

A chegada da Gina, com o braço dobrado, embora não estivesse envolto em gesso ou outro material que o imobilizasse, fez convergirem todas as atenções.

- Soube que você caiu, Gina! - penalizou-se o Luca.

- E não foi medicada? - emendou.

- Havia tanta gente na emergência do hospital, que preferi dar meia volta e vir para casa.

- Não vai, então, sair?

- Não. E o Daniel foi trabalhar, mas daqui a pouco, chega.

- Fala, então, com ele, que a academia de ginástica fica aberta até três da tarde. - informou o Luca.

- Vamos, Carlinhos. - apressou-me.

Antes de pegar carona com o Luca, para Del Castilho, Gina me levou até a cozinha.

- Carlinhos, entregue este presente à sua sobrinha. Não poderei ir à festa por causa do braço...

- Gina, a festa é perto do Engenhão e hoje tem jogo do Flamengo... Haverá engarrafamento!...

- Talvez não. - mostrou-se otimista.

- Eu, quando era menino, peguei a barca de Niterói bem na hora em que a torcida do Flamengo voltava para o Rio, depois de um jogo contra o Canto do Rio. Sei o que é isso...

- Boa sorte. - desejou a Gina.

(*) Trata-se de um caso raro: a pessoa pensa, não fala e escreve o que fez e o que não fez.