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domingo, 25 de junho de 2017

3045 - Parentesco à prestação.


           
O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5306 SX                           Data: 25 de junho de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV


TIO LUIZ

O prédio, branco, bastante antigo, está lá até hoje. Fica na esquina de Rita Ludolf com General San Martin, bem no final do Leblon. São três andares, mais um pavimento térreo. A impressão que se tem é a de que parte deles é ocupada por escritórios. Apartamentos residenciais parecem ser coisa do passado.

Nos anos 50 um desses apartamentos era ocupado por uma família chilena. O patriarca era Juan Marchant, um fantástico jóquei que brilhou durante muitos anos no Hipódromo da Gávea.

Uma leva de profissionais do turfe chileno aportou no prado carioca nos anos 40 e 50. Todos muito competentes. Lembro, além de Juan Marchant, de Emidgio Castillo, Oswaldo Ulloa, Luiz Dias e do extraordinário Francisco Irigoyen. Este, classudérrimo, era o piloto titular do Stud Seabra, que abrigava grandes campeões. Entre eles Escorial, o super craque que viajou para Buenos Aires e desbancou a criação argentina no Grande Premio Carlos Pellegrini, em 1959. No dorso, “Pancho Irigoyen”. Que era tudo, menos um atleta. Boêmio, dizia não guardar apreço especial por sua profissão. Repetia sempre: “No me gusta la hípica. A mi me gusta bailar”. Bailou até o dia 20 de maio de 1984. Foi quando desapareceu. Sumiu completamente. Não se sabe como, nem porquê. Sequestro? Ninguém sabe. Nunca surgiu uma pista para o desaparecimento de Francisco Irigoyen.

Voltemos a Juan Marchant. Um belo dia, o barítono Paulo Fortes, que morava a quatro prédios de distância, bateu à sua porta, conforme haviam combinado. Foi direto ao assunto: “Marchant, amigo velho, este não está sendo um ano bom para quem se mete a cantar ópera. A programação do Municipal anda fraca e eu estou duro feito um coco. Tenho que pagar a prestação do financiamento do apartamento, o pessoal do Banco do Brasil, você sabe, não dá refresco. Eu pensei, vou falar com o Marchant. Quem sabe ele me dá uma barbada, me indica um cavalo meia-bomba que, ganhando, pague uma nota preta a seus apostadores. Jogo uma grana no bicho e resolvo meu problema...E aí velho, alguma sugestão?”

Marchant ouviu. Não disse nada. Rosto largo, olhos rasgados, a revelar sua ancestralidade. Pele queimada, inevitável para quem, todas as manhãs, exercitava dezenas de cavalos de corrida. Esse silêncio durou um tempo, até ser rompido por uma frase curta.

“Pablo, sábado, sexto páreo. Tio Luiz”.

“Vamos lá, Marchant, deixa eu ver o programa...sexto páreo...Tio Luiz...é você que monta esse tal de Tio Luiz! Mas é um cavalo horroroso! Não vai a lugar nenhum!”
Expressão inalterada, Marchant repete: “joga Tio Luiz...”

Paulo se desespera: “Marchant, o assunto é sério! Tenho andado muito nervoso! E você me vem com uma maluquice dessas! Esse Tio Luiz nunca passou de um oitavo lugar! Isso num páreo em que provavelmente correu sozinho...”

Não disfarçando um ar de enfado, o arauto repetiu pela última vez: “sexto páreo. Tio Luiz”.

Paulo Fortes agradeceu, educadamente, mas deixou a casa de Marchant com absoluta certeza de que havia perdido seu tempo. Dormiu mal nas duas noites seguintes. Chegado o sábado, se arrumou e foi para o Jockey Clube. No bolso enfiou uma maçaroca de dinheiro, para qualquer eventualidade. Dinheiro reservado para passar o resto do mês, nunca para apostar naquele estrupício, o tal de Tio Luiz...

Os páreos foram sendo disputados. O hipódromo estava lotado. Frequentador assíduo, o barítono permanecia junto de seus amigos. Quarto páreo, quinto páreo...eis que aconteceu o rompante. Como um raio, ele se dirigiu ao guichê de apostas, sacou seu maço de notas e bradou: “Sexto páreo, tio Luiz, Ponta!”

Voltou ao seu lugar. Alguém perguntou e ele, envergonhado, disse que apostara em Tio Luiz. Risada geral. Interrompida com o início do “canter”, o galope de apresentação do sexto páreo.

Dava pena o tal do Tio Luiz. Para começar, um cavalo de porte muito pequeno, em comparação com os demais concorrentes. Certo de que havia feito uma besteira monumental, Paulo Fortes até achou que o bicho já entrara na raia mancando. Pelo binóculo, viu se dissiparem suas últimas esperanças. No dorso do indigitado, a expressão de Juan Marchant revelava profundo desânimo. Depois de um “canter” desalentador, o barítono mal acreditava que Tio Luiz pudesse encontrar forças para chegar até o “starting-gate”.

Mas chegou. E foi dada a largada! De acordo com o previsto, Tio Luiz foi ficando para trás. Mas, surpreendentemente, quando o pelotão começou a contornar a grande curva, estava próximo dos demais competidores. Terminou a curva “misturado” com a concorrência. Ao entrarem na reta de chegada, tio Luiz se aproximou dos ponteiros. Paulo Fortes gritava feito um louco: “Tio Luiz!”, “Tio Luiz!”. No dorso do matungo, Juan Marchant se agitava como um demônio. Tio Luiz já ocupava a segunda colocação. Paulo gritava “Tio Luiz” no mesmo lá bemol em que finalizava a ária de Fígaro, no “Barbeiro de Sevilha”. Eis que Tio Luiz assumiu a ponta. Paulo passa a gritar no tom em que encerra a Romanza do “Guarany”, de Carlos Gomes.

Tio Luiz ganhou o páreo. No entorno do barítono todos estão completamente surdos. O matungo pagou um monte de dinheiro aos seus escassos apostadores. A prestação do apartamento estava salva.

Durante muito tempo Paulo Fortes, por onde circulava no Jockey, ouvia dos demais frequentadores um coro frenético: “Tio Luiz!”, “Tio Luiz!”

quinta-feira, 22 de junho de 2017

3045 - O funga-funga do bruguelo


           
O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5305 FM                           Data: 22 de junho de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV

                               
COISAS DE CEARENSE (3)

Falar do Ceará pode esgotar a paciência de quem ouve; longe, porém, de quem tem histórias para contar. E haja histórias, que cearense tem memória, tem seu estilo próprio de dizer, sua linguagem com termos certos para dizer o que pensa, de modo até pitoresco. Quem ouve, não esquece. 

Pode-se não entender, assim, de imediato, mas quem vive ouvindo dizer ou vendo acontecer, fica impregnado do sentir cearense, respira o ar seco nordestino, embebeda-se com o frescor da brisa, quando o Sol vai sumindo no horizonte, ao anoitecer.

Cearense diz “Meu bichim”, quando trata alguém carinhosamente, chama de “Fio duma égua”, quando engrossa a voz e fica por conta com o desaforado, ou chama o sujeito de “Pai d´égua”, quando quer exaltar suas qualidades. Se quer tratar uma pessoa com deferência ou simpatia, chama de “Meu cumpade”. Tem lá os seus gostos particulares, chama lanche de merenda e, já foi moda, tomava café segurando a xícara com o dedo mindinho empinado, quando em rodas de amigas, convidadas para reuniões de fim das tardes. Como era também moda, não podia faltar um refresco de groselha, com gelo moído boiando no copo. Mas isso foi lá pelos anos de 1930 ou 40. Os hábitos mudaram, os de hoje são diferentes, pois a globalização na informação uniformizou tudo. O dedinho encolheu, a groselha sumiu, o refrigerante é engarrafado e nem mesmo a merenda existe mais, por medida de economia ou por falta de tempo. Certos costumes, porém, continuam, pois cearense não dispensa carne de sol, com o tempero de uma cachacinha da boa, feita em alambique particular, para abrir o apetite. Às vezes, também, para fechar o dito.

Uma soneca depois do repasto, que ninguém é de ferro, tem lá o seu gosto e encanto, mormente em rede de pano grosso, com varanda larga para espantar moscas e como enfeite, armada no alpendre da casa, balançando suavemente, para levar o descansante às merecidas alturas. E ele vai, a sono solto, na brisa da tarde.

Como chove pouco, nas terras cearenses, encanta-se ao ver cair do céu uma chuvinha, ainda que passageira. Serve para aguar as plantas. Se for de noite, que seja bem-vinda, fica o distinto arretado, termo que usa para justificar as vontades da carne. E haja vontade, desde que outras carnes estejam à mercê.

E assim ele conta, sem arremedos, sem jactância, só por dizer, e diz:

“Seu minino, se chove, gosto de ouvir o baticum da água nas “têia”, esqueço o relâmpego e o trovoamento, me enrosco na rede com a muié, deixo a água da goteira pingar na minha bunda, até parar de chuvê ou até que nós dois deixemo de fungar. Aí, é só esperar os nove mês e ouvir o choro do bruguelo. Olhe, num tem coisa mais gostosa, nessa vida besta”. Isso é contado sem pressa, na conversa descompromissada, que ninguém é corrido da polícia nem está fugindo de briga de faca. E é bom de ouvir.


Pois muito disso tem no Ceará, terra fértil de coisas saborosas de se comer, de se gostar, de se fazer, de se ouvir. Nem precisa ir muito longe, basta puxar pela memória, lá vem tudo de roldão, para acalanto do coração distante, nem por isso esquecido, nem por isso desligado da santa terrinha, a chamada Terra da Luz.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

3044 - Hoje começa o inverno


           
O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5304 SX                           Data: 21 de junho de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV

                      
HVOR ER BADET ?

A decisão está tomada. Na próxima encarnação vou nascer norueguês.

Por enquanto é apenas projeto. Não sei que providências tomar para concretizá-lo. Uma ideia é aproveitar a viagem que minha mulher e um grupo de amigas vão fazer em setembro à Escandinávia. Lá, certamente, ela poderá obter as informações necessárias. A Noruega, todos sabem, é um país organizadíssimo, rico, socialmente resolvido, onde tudo funciona muito bem. Para se ter uma ideia, o primeiro ministro desse paraíso vai trabalhar de bicicleta. No Brasil, a “Presidenta”, que tudo esculhambou, passa o tempo voando de primeira classe para todos os lados, acompanhada de um séquito de seguranças, assessores e motoristas. Tudo pago por nós.

Há tempos minha decisão vinha sendo amadurecida. Para ela contribuiu a recente decisão do Tribunal Superior Eleitoral de absolver a chapa Dilma – Temer de todas as patifarias cometidas em eleições presidenciais recentes. Como foi muito bem observado, por excesso de provas. E fomos obrigados a ver nosso discernimento subjugado pelo voto de três ministros obscuros, postos ali para “cumprir tarefas”. Como “grand finale”, ouvimos as “ponderações” (?) do Presidente da casa, que devem ter motivado muita gente boa a comprar um pé de pato e pular do vão central da Ponte Rio – Niterói.

Existe a palavra inexorabilidade? Vamos admitir que sim. Na crise provocada pela “Presidenta” fui obrigado a vender meu dicionário. Pois bem, minha opção norueguesa também decorreu de uma inexorabilidade alarmante: dentro de poucos anos o Brasil vai se transformar em um grande deserto. Explico: é gente demais “saindo do armário”. A população LGBT cresce a olhos vistos. E vai crescer muito mais, através do acréscimo de novas letras. Por enquanto, parou no “T”. Mas existem evidências concretas de que novas especialidades vão ser proximamente incorporadas a essa sigla. Diante disso, fica claro que, dentro de um certo prazo, por aqui não vai nascer mais ninguém.

Por um tempo cogitei enfrentar esse problema. Pensei, inicialmente, em lutar pelo fim das verbas que financiam a “Parada Gay”. Impossível. Isso resulta em imensa gritaria. Afinal, há que se curvar às maiorias. Tentei, também, organizar outro tipo de reação. Por que não convocar uma “Parada Hétero”? Fracasso total. Somos poucos diante de uma oposição organizada e poderosa. E agitada, por certo.

Ainda sobre a Noruega. Falemos de Saúde. Todos sabem que lá funciona às mil maravilhas. Os impostos, ninguém duvida, são muito altos. Mas é o preço que se paga por algo que funciona como um relógio suíço. Não sei se existe relógio norueguês...

Já pensou ficar livre das mazelas que aqui envolvem a Saúde? Parte de nossa população é candidata à morte certa decretada pela vergonheira do SUS. Os mais abastados, ou, para ser preciso, mais “abestados”, são vítimas dos Planos de Saúde. Que todo ano são reajustados segundo percentuais superiores aos da inflação. Aprofundei-me, recentemente, no estudo da lógica dessa safadeza. Para concluir que esse é apenas um capítulo em meio às dezenas de conluios que resultam no enriquecimento de políticos, empresários sem caráter e administradores de agências governamentais que não se sabe para que servem.

Música popular na Noruega. O que será que me aguarda? Preciso me informar sobre o assunto. Por aqui é evidente que vivemos um período de trevas. Que atinge jornais, teatros, emissoras de rádio e estações de televisão. O mau gosto é generalizado. Não faz uma semana meu quarteirão, em Copacabana, balançou durante horas ao som de um “funk” comandado por uma cantora que gritava palavrões. Dormir? Nem pensar.

Falando em estações de rádio, também elas são uma raça em extinção. Durante um bom tempo gravei nas dependências da Empresa Brasileira de Comunicações, na Avenida Gomes Freire, um programa que transmitia concertos apresentados pela Orquestra Sinfônica Brasileira. Ocupávamos espaços reservados à Rádio MEC. Ao lado, numa sala mais do que acanhada, funcionava a Rádio Nacional. Triste destino para uma gigantesca emissora que teve sob contrato Radamés Gnatalli, Leo Perachi, Lyrio Panicali, Heron Domingues, Max Nunes, Haroldo Barbosa, Paulo Gracindo, Antonio Cordeiro, Jorge Curi...E que abrigava, nem mais nem menos, uma orquestra sinfônica!

A Oslo Philharmonic Orchestra, fiquei sabendo, é uma bela orquestra! E existem na Noruega mais dezoito grupos sinfônicos importantes. Nesse particular vou sair ganhando porque, todos sabem, a Orquestra Sinfônica Brasileira enfrenta dificuldades financeiras que se afiguram insuperáveis. Um conselho de notáveis tantas besteiras fez que conduziu a OSB à dramática situação em que ela se encontra. Oito meses de salários atrasados, demissão de todo o corpo administrativo. Setenta e seis anos de fundação. Que estão indo pelo ralo. E o Teatro Municipal? Meu pai foi poupado de assistir o que lá está acontecendo. Durante 51 anos ele cantou no Municipal. Foi o artista que mais vezes se apresentou em nossa principal casa de espetáculos. Não vou dizer que era sua segunda casa. Sei que era a primeira. Paulo Fortes estaria atordoado tomando conhecimento da crise que lá prevalece.

E o que mais? Um governador desvia um caminhão de recursos e compra jóias que alcançam cifra superior a onze milhões de reais. A Petrobras é saqueada ao tempo em que o governo brasileiro faz agrados a Cuba, Venezuela, Bolívia e mais um punhado de ditaduras africanas. Pensando bem, acho boa ideia acompanhar minha mulher em sua viagem à Escandinávia. Quem sabe, já ir ficando por lá...


Para finalizar, uma informação sobre o título desta crônica, “Hvor er Badet”. Em norueguês quer dizer “Onde é o banheiro?” Achei importante saber.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

3043 - Habeas Taxit


           
O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5303 FM                           Data: 19 de junho de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV

                               
HABEAS CORPUS CHRISTI 

- Hoje o tempo está bom, o tráfego está bom...
- É que hoje é feriado, dia de Corpus Christi.
- Pois é, dia de festa.

O diálogo entre o passageiro e o motorista de táxi foi rápido. Ao chegar diante de um hotel, em Copacabana, o motorista pretendeu ser agradável, disse tenha um bom feriado de habeas corpus Christi, doutor.

- Obrigado.

Poderia ser piada, mas foi a confusão mental do motorista, que vem sendo bombardeado diariamente nos últimos tempos, com o noticiário político-policial que trata da roubalheira desenfreada dos canalhas que estão metendo a mão na cumbuca do Estado e amealhando em suas burras, com uma cupidez sem limite, sem se importarem com o caráter, que é atirado no lixo, com o desrespeito ao povo, que sofre nos hospitais por falta de medicamentos, com o desastre educacional que é humilhante para o país, pelo péssimo sistema de ensino. Até dá náuseas falar nesse assunto.

Para aliviar a falta de conhecimento do motorista e de algumas outras pessoas que estão confundindo o instituto do habeas corpus com a festa religiosa, convém um pouco de ajuda, com o auxílio do Google. Portanto, eis um pouco sobre a expressão latina do Corpus Christi, que significa Corpo de Cristo, um evento baseado em tradições católicas realizado na quinta-feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade que, por sua vez, acontece no domingo seguinte ao de Pentecostes.

A origem da Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo remonta ao século XIII. O papa Urbano IV, na época ainda cônego, na Bélgica, recebeu o segredo da freira agostiniana Juliana de Mont Cornillon, que teve visões de Cristo demonstrando desejo de que o mistério da Eucaristia fosse celebrado com destaque. Por volta de 1264, em uma cidade próxima a Orvieto ( onde o já então papa Urbano IV tinha sua corte ), chamada Bolsena, ocorreu o Milagre de Bolsena, em que um sacerdote celebrante da missa, no momento de partir a Hóstia, teria visto sair dela sangue, que empapou o corporal ( pano onde se apoiam o cálice e a pátena durante a missa ). O papa determinou que os objetos milagrosos fossem trazidos para Orvieto em grande procissão em 19 de junho de 1264, sendo recebidos solenemente por Sua Santidade e levadas para a Catedral de Santa Prisca. Esta foi a primeira procissão do Corporal Eucarístico de que se tem notícia. A festa de Corpus Christi foi oficialmente instituída com a publicação da bula Transiturus, em 8 de setembro de 1264, para ser celebrada na quinta-feira depois da oitava de Pentecostes (uma celebração cristã que comemora a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos de Jesus Cristo. É festejado 50 dias após o Domingo de Páscoa, data instituída como a da Ressurreição de Jesus).

Quanto ao Habeas Corpus, é uma expressão latina formada pela segunda pessoa do presente conjuntivo do verbo “haber”, que significa “ter ou haver”. (Etimologicamente significa “que tenho o teu corpo”- a expressão completa é habeas corpus subjicendum). Constituir uma garantia constitucional em favor de quem sofre violência ou ameaça de constrangimento ilegal na sua liberdade de locomoção por parte de autoridade legítima.

Sua origem remonta ao Assentamento de Clarendon, um decreto de 1166 do rei Henrique II da Inglaterra, embora se atribua erroneamente sua origem à Magna Carta, de 1215, imposta pelos nobres ao rei, com a exigência do controle legal da prisão de qualquer pessoa. Esse controle era realizado sumariamente pelo juiz que, ante os fatos apresentados, decidia, de forma sumária, acerca da legalidade da prisão. Sua utilização só foi restrita ao direito de locomoção dos indivíduos em 1679, através do Habeas Corpus Act. Com o tempo, o princípio foi sendo adotado em todo o mundo.


No Brasil, a preocupação com a ilegalidade e o abuso de prisões arbitrárias chegou com dom João VI, pelo decreto de 1824. Entretanto, somente em 1832 o instituto da norma inscreveu-se na legislação, através do Código de Processo Criminal do Império.

Posteriormente, a garantia individual foi incluída em todas as constituições brasileiras, a última de 1988. Não é necessária procuração, bem como a participação de advogado ou pessoa qualificada para o pedido que garanta o direito fundamental do indivíduo.

sábado, 17 de junho de 2017

3042 - Piadas de caserna


           
O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5302 D                           Data: 18 de junho de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO:XXXIV


                                      O BELICHE DO GALO

Aconteceu comigo, um dos poucos brasileiros que teve a oportunidade de servir à Pátria duas vezes. E jurar à Bandeira por duas instituições militares diferentes. 

Até hoje, já livre dos fardos de ser um reservista bidirecionado, ainda sinto arrepios em pensar a qual arma deveria servir, caso uma se colocasse contra a outra e não contra a Argentina.

A primeira viagem de instrução de aspirantes a oficial estava prevista para julho de 1969 e fui escalado para tripular o Cruzador Barroso, o famoso Charlie 11, até Salvador, Bahia.

Charlie é o nome da letra C no Código Internacional de Sinais, e onze era o número do Barroso. Não há número de um dígito nas marinhas, certamente para impressionar e iludir os agentes inimigos. Tudo começa em onze. E em todas as marinhas.

Na nossa Marinha, o Barroso era o 11 e o Tamandaré, o 12. 

Quem tripulou o Charlie 11 não esquece dos alto falantes que berravam 24 horas por dia; Charlie Onze, e o corneteiro tocava a Alvorada, Charlie Onze, início do Exercício XPTO, Charlie Onze, um apito avisava que chegou o Comandante, Charlie 11, Postos de Combate.

O chamado para Postos de Combate era odiado. Não porque fosse ocorrer qualquer escaramuça, mas porque todas as passagens, portas, escadas, tudo era tornado estanque com as devidas tampas e deixada uma abertura circular de 40 centímetros por onde você tinha que se esgueirar e achar, do outro lado, o primeiro degrau, em locais com iluminação reduzida.

Era tombo atrás de tombo. Enquanto isso, um oficial combatente ficava com um cronômetro, esperando que os bravos aspirantes chegassem a seus postos, devidamente encapacetados, encoletados e prontos para a batalha.

Aí, o fonoclama – é esse o nome do alto falante – chamava Charlie Onze e apitava, com potência redobrada, o fim do combate, mas de maneira que todos pudessem ouvir o aviso em qualquer ponto do Oceano Atlântico. Irritante demais.

Aguardávamos, esperançosos, o esganiçado chamar Charlie Onze e apitar Postos de Abandono do Navio, mas este sucesso nunca foi tocado.

No dia do embarque no Charlie Onze, a ansiedade era enorme. Nós todos tínhamos uniformes iguais e portávamos um saco de lona, redondo, branco e igual, onde tudo que coubesse era o que teríamos para a viagem. Fosse de 3 dias, ou de 40.

Alguém nos contou que os beliches eram cinco, um em cima do outro, com um espaço bem restrito entre camas. Aqueles que fossem mais aptos deveriam escolher as camas superiores, onde o espaço era bem maior. Dito e feito, mal a lancha atracou na escada de portaló, nós tomamos o Barroso de assalto, com a selvageria típica de vikings ocupando uma capela de freiras.

Bem capacitado fisicamente pelos torneios de Medicine Ball dos velhos tempos do Primeiro Exército, subi a escada em terceiro ou quarto lugar, e segui a orientação dos oficiais verdadeiros, que incentivavam e se divertiam com a corrida. Cinco conveses abaixo (ou andares, se preferirem) encontrei o nosso alojamento e, bem chegado, joguei o saco no beliche mais alto.

À noite, ao fim do primeiro dia de navegação, que inclui sempre a saída do Rio de Janeiro ao por do Sol, voltei à gruta que eu tão sabiamente escolhera. Tudo certo, meu saco de viagem estava lá, troquei de roupa e subi.

Dei de cara com uma viga estrutural (sicorda) que passava, gigante, exatamente ao longo do meio do beliche, deixando sobre o meu nariz uns cinco centímetros de ar.

Todo dia um galo novo.


Registro I: Tripulei o Barroso em 69 e ajudei a construir, em 73, um Rebocador de Alto Mar, o Aquarius, da Wilson Sons. Uma tarde brumosa, poucos meses depois da entrega do Aquarius, eu voltava de Niterói enquanto o Barroso saía rebocado, justamente pelo Aquarius em direção ao desmanche, em Santos, onde nasci.

Fiquei olhando, olhando, até aquelas duas silhuetas tão conhecidas se fundirem ao cinza molhado daquela tarde triste.


Registro II:  O Barroso e o Tamandaré, embora de projeto idêntico, tiveram destinos separados. Na Segunda Guerra Mundial, o Barroso (então USS Philadelphia) operou no Norte da África e no Mediterrâneo, enquanto o pré-Tamandaré (USS Saint Louis) sobreviveu ao ataque em Pearl Harbor e, modernizado, batalhou no Pacífico.

Sofreu um ataque kamikaze, que danificou seriamente a proa, mas não o afundou e consta que, desde então, a alma do piloto japonês assombrava o navio, ora fechando válvulas, ora apitando à meia noite, ora projetando no radar a bolinha do avião de Toshiro Kaskatayama, tudo sobrenaturalmente inexplicável.

O Tamandaré foi desmobilizado três anos depois do Barroso e foi vendido para ser desmanchado no Extremo Oriente. Durante a operação de reboque, a proa cedeu e, lentamente, o navio penetrou para sempre no Atlântico, já próximo da costa africana.

O ataque kamikaze teve sucesso, finalmente. Muito melhor assim.



3041 - Para mim, só marfim


           
O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5301 SX                           Data: 17 de junho de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO:XXXIV


EVITANDO AS TECLAS PRETAS

Quando alguém pergunta ao meu amigo Jonas Vieira, com quem tenho o prazer de dividir a condução do programa “Rádio Memória”, na Rádio Roquete Pinto, qual é a maior invenção da história da humanidade, ele prontamente responde: “É a orquestra!”

Jonas não perde oportunidade de ressaltar a importância da música, a todo momento, em qualquer circunstância. É claro que ele fala de boa música. Que parece estar desaparecendo. A remanescente os meios de comunicação, cada vez mais, parecem estar empenhados em esconder.

Os últimos acontecimentos da política e da economia brasileiras estão adoecendo nossa população. Aqueles que assistiram as façanhas mais recentes do Tribunal Superior Eleitoral certamente estão padecendo de enjoos, náuseas e problemas respiratórios. Impõe-se combater essas aflições.

Para isso, recomendo música de boa qualidade. Por exemplo, as belíssimas canções do compositor Irving Berlin. Passo a apresentar alguns argumentos, a justificar a prescrição desse remédio.

Em certa ocasião, um jornalista pediu ao famoso compositor Jerome Kern que definisse o papel de Irving Berlin na música norte-americana. Disse ele: “Irving Berlin é a música americana.” Pois bem. O compositor que mereceu tal definição não era americano. Ele nasceu na Sibéria, em 1888. Imigrou para os Estados Unidos, juntamente com sua família, em 1893. Seu pai, um rabino, ganhava a vida inspecionando a correta procedência da comida “Kosher”, segundo as normas da religião judaica.

Moses, o rabino, morreu cedo. Berlin se viu obrigado a trabalhar desde os oito anos de idade. Fez de tudo, começando por vender jornais. Um de seus empregos mais peculiares foi o de garçom-cantor num restaurante em Chinatown. Um restaurante concorrente tinha uma canção especial, cantada por seus garçons. Uma espécie de hino do estabelecimento, que fazia muito sucesso. Para equilibrar a disputa, Berlin compôs a canção “Marie from sunny Italy”, que virou marca registrada do restaurante em que trabalhava.

A música foi publicada, do que decorreram dois acontecimentos importantes na vida do compositor. Primeiro, ele ganhou 37 centavos de dólar pela composição. Em segundo lugar, a canção foi registrada com seu nome errado. Foi assim que Israel Isidore Baline virou Irving Berlin, compositor de milhares de canções, 17 trilhas sonoras para o cinema e 21 musicais da Broadway.

Nada mal para quem sequer sabia escrever música, o que fazia através de anotações muito rudimentares. Normalmente, tudo o que produzia era registrado por um secretário e imediatamente transposto para a pauta musical. Era, além disso, um péssimo pianista. Escolhia para suas canções tons que lhe permitissem evitar as teclas pretas do piano, pelas quais nutria sincera aversão.

Nenhuma dessas limitações impediu-o de produzir canções que mexeram com o orgulho e a auto-estima do povo norte-americano. Dois exemplos são “God Bless America” e “White Christmas”. A primeira alcançou a dimensão de um segundo hino dos Estados Unidos. A segunda vendeu 30 milhões de cópias na voz de Bing Crosby. O cantor teve que gravá-la duas vezes no intervalo de poucos meses. Tamanha produção de discos danificou a matriz original da gravação.

A contribuição de Irving Berlin para o cinema também foi espetacular. “Top Hat” foi a primeira de uma série de comédias românticas produzidas por Hollywood entre 1935 e 1950, todas com música de Berlin e estreladas por Bing Crosby, Fred Astaire, Ginger Rogers e Judy Garland, os campeões de bilheteria da época. Depois de “Top Hat” as criações do compositor abrilhantaram “On the Avenue”, em 1937; “Holiday Inn”, que é de 1942; “Blue Skies”, em 1946; e “Easter Parade”, em 1948.

Também fez sucesso, em 1943, o filme “This is the Army”, com forte apelo patriótico, em que o próprio Irving Berlin aparece cantando “Oh, How I hate to get up in the morning”.

“Cheek to Cheek’, que integrou a trilha sonora de “Top Hat”, é um belo exemplo da contribuição de Irving Berlin para o cinema. No filme, a belíssima canção foi cantada por Fred Astaire. Depois disso mereceu centenas de gravações, com artistas do quilate de Bing Crosby, Frank Sinatra, Louis Armstong, Ella Fitzgerald, Count Basie, Tommy Dorsey e Sammy Davis Jr., entre outros. A trajetória de “Cheek to Cheek” no cinema não parou por aí. Ela integrou a trilha sonora de “O Paciente Inglês” e “A Rosa Púrpura do Cairo”, de Woody Allen.

Uma crônica não é espaço suficiente para descrever a trajetória de sucesso dos musicais que Irving Berlin produziu para o teatro. Seu nome ficou gravado na Broadway especialmente com o musical “Annie get your gun”, que estreou no dia 16 de maio de 1946, alcançando êxito extraordinário. A produção fez explodir a carreira de Ethel Merman e foi encenada nada menos do que 1.147 vezes.

Os produtores do espetáculo, Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II, lutaram para convencer Berlin a aceitar essa incumbência. Jerome Kern, inicialmente contratado para compor as músicas de “Annie get your gun”, morreu subitamente. Berlin declarou-se sem condições para substituí-lo, alegando não saber produzir aquele tipo de música. Mas aceitou ler a sinopse da produção, preparada por Dorothy Fields. O tema era a vida de Annie Oakley, mulher super destemida que desafiava e superava dezenas de marmanjos em competições de tiro.

Dias depois Berlin surpreendeu Rodgers e Hammerstein apresentando três músicas para a encenação.


Maravilhosas, é claro. O resto é história.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

3040 - Moscatel pulou a bela


           
O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5300 SX                           Data: 16 de junho de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV

                             
AS APARÊNCIAS ENGANAM

O brilhante ilustrador, chargista e caricaturista Carlos Estevão apresentava nas páginas de “O Cruzeiro” uma seção de muito sucesso, com o título “As aparências enganam”. A brincadeira estava em mostrar o contorno de figuras escuras, aparentemente em situação de constrangimento ou perigo iminente. Ato contínuo, o artista apresentava a mesma cena, só que, agora, devidamente “iluminada”. Com todos os detalhes das figuras envolvidas à mostra. Com isso, era possível perceber que as cenas supostamente assustadoras inicialmente mostradas estavam revestidas, na verdade, de inocência e candura.

Não esqueço um desenho que parecia retratar uma agressão à faca, envolvendo esposa e bebê de um suposto desclassificado. Devidamente clareada, o que se percebia era uma prosaica cena familiar, um gentil marido besuntando com manteiga os pãezinhos que seriam servidos à sua dileta família.

Na vida real, muita coisa pode acontecer dessa mesma forma. Com frequência convivemos com pessoas envolvidas em histórias surpreendentes. Possivelmente com pinceladas de mistério. Casos há em que nos é dada a chance de decifrá-las. O que nem sempre é possível. Passamos a relatar algumas situações que poderão ser do interesse dos nossos leitores.
                                          
O Tenor

O ano é 1940. O dia, 12 de agosto. Começa a Temporada Lírica Oficial do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, repleta de astros de primeira grandeza.

“Turandot”, de Giacomo Puccini, abre a temporada. O soprano Zinka Milanov e o tenor Galiano Masini estão no ápice de suas brilhantes carreiras. Levam à loucura um Municipal completamente lotado.

Terminado o espetáculo, um jovem estudante do Colégio São Bento não resiste e se dirige ao camarim daqueles extraordinários artistas. Enche-se de coragem e pede um autógrafo ao tenor Galiano Masini. Explica que está estudando canto, que tem voz de barítono. Simpático, o tenor deseja-lhe sorte e começa a escrever uma dedicatória numa foto em que posa vestindo um terno elegantíssimo, devidamente engravatado. O artista famoso, que atua nos mais importantes palcos de ópera do mundo, leva quase meia hora para escrever uma frase curta. Fica claro, para seu jovem admirador, que se trata de um homem de pouca cultura.

O jovem não se importa. Ele guardaria essa foto com carinho, até estrear no Municipal, cinco anos depois. E também durante os cinquenta e um anos em que desenvolveria naquele palco uma notável carreira de artista lírico. A propósito, a dedicatória da foto diz o seguinte: “Al giovane barítono Paulo Fortes, per recordo, Galiano Masini”.

O Atleta

Nos anos 60, João Belo era a “figura carimbada” da rua Paula Freitas. Não parava quieto. Devidamente paramentado, fazia ginástica no meio da rua, alardeando grandes proezas atléticas de que era capaz.

Não me lembro de tê-lo visto alguma vez andando. Estava sempre correndo. E tinha uma especialidade. Correr de costas. Numa velocidade espantosa. Nos domingos de sol, com a praia lotada, encontrava o público ideal para cometer suas façanhas.

Na época, achávamos tudo aquilo uma tremenda maluquice. Cinquenta anos depois, continuo a achar que era mesmo maluquice mas, próximo da idade que à época provavelmente ele tinha, começo a achar que o sujeito era realmente um fenômeno.

Ocorre que o problema da garotada era mesmo o de “zoar” com João Belo. Duvidavam de suas façanhas, o que o levava à loucura. E quanto mais áspera ficava a discussão, mais nosso campeão exagerava a dimensão de seus feitos estarrecedores. Ficava furioso com as risadas que provocava. Essa fúria resultava em mais gargalhadas. Não acabava nunca.

O ponto culminante dessa pantomima aconteceu quando um gaiato, às vésperas dos jogos olímpicos de Tóquio, em 1964, providenciou a impressão de um falso jornal norte americano, que estampava em sua primeira página, em letras garrafais, a manchete: “João Belo é a arma secreta do Brasil!”.

João Belo enlouqueceu. Finalmente um jornal reconhecera a dimensão internacional dos seus feitos! E agora, o que seus detratores tinham a dizer? O burburinho não parava de crescer.

A radicalização das discussões levou alguns integrantes da turma da Paula Freitas a cobrar de João Belo a comprovação de suas aptidões. Depois de muitos debates acalorados, uma modalidade atlética foi finalmente escolhida: o salto em altura.

Quase na esquina de Paula Freitas com Avenida Copacabana uma mercearia montava um grande engradado para vender garrafas de leite. Isso mesmo. Garrafas de leite, de vidro, se bem me lembro das marcas CCPL, Vigor e OFCO. O desafio proposto ao nosso campeão foi o de saltar e ultrapassar a altura do tal engradado.

Fiquei apavorado, não gostei nada da ideia. Outro que não gostou foi o dono da mercearia. Mas não teve jeito. No dia aprazado, a rua ficou coalhada de gente. João Belo se vestiu com esmero para o evento. Camisa de meia branca e um enorme calção preto, em que a cintura não ficava distante de seus ombros.

“Cabide”, um dos líderes da turma, zelava pelo cumprimento das regras olímpicas. Ao seu comando, João Belo tomou distância e partiu em desabalada carreira. Sou sincero ao declarar que nem com apoio de uma escada do corpo de bombeiros eu superaria o obstáculo que João Belo se propunha ultrapassar. E ele quase conseguiu. Com um salto incrível, chegou muito perto do cume dos engradados de leite. Mas seu pé ficou preso na última fileira de garrafas. Com isso, toda a estrutura veio abaixo. Centenas de garrafas quebradas. Um mar de leite cobrindo a calçada. Cacos de vidro que devem estar lá até hoje.

Não sei se nosso atleta viajou para Tóquio. Sei que, da Paula Freitas, ele sumiu.


O Matemático

Pouco tempo depois do sumiço de João Belo me mudei para a rua ao lado, a República do Peru. “Moscatel” era seu personagem mais peculiar. Gordinho, cabeça branca, olhos azuis, nunca entendi  o porquê do apelido.

“Moscatel” não falava. Repetia sem parar apenas três ou quatro palavras, ou nomes, que jamais decifrei. Era algo próximo de “Prá Fernando, prá Eurídice”. Era só o que ele falava. Não fazia mal a ninguém. Andrajoso, mas jamais com aparência de sujo. Todos os moradores da República do Peru tentavam interpretar o que se passava na cabeça do “Moscatel”. Para alguns, “Fernando” e “Eurídice” seriam seu filho e sua mulher, mortos em circunstâncias trágicas. Ninguém jamais conseguiu saber.

O primeiro ano em minha nova rua foi bastante tenso, na medida em que se aproximavam as provas do vestibular. Eu era aluno do Santo Inácio, o que significava meio caminho andado. Faria certamente boas provas de Português, línguas e conhecimentos gerais. Tiraria “de letra” a redação. Mas a matemática... Com ela jamais tive uma relação cordial.

Minha meta era passar na UFRJ, no que então se denominava Faculdade Nacional de Economia. Depois de onze anos de mensalidades no Santo Inácio, queria dar uma folga a meu pai, cursando uma faculdade do governo.

Sabia que a prova de matemática da Nacional não seria fácil. Provavelmente preparada por um matemático famoso, o Professor Rio Nogueira. Que tinha fama de ser levemente sádico.

Ciente disso, não me restava alternativa, naquele momento, a não ser estudar loucamente a matemática. Duílio Nogueira, meu professor no Santo Inácio, era excelente. Mas, por conta de minhas limitações, que eu reconhecia, e de uma dose cavalar de insegurança, decidi agir por conta própria. Comprei um monte de livros americanos. Sobre o piano de cauda de minha mãe mantinha estocados dois palmos de exercícios de geometria analítica, trigonometria e que tais.

Dúvidas eu tirava com o Fernando, colega da República que estava próximo de completar o curso de engenharia. Mas ele nem sempre estava disponível. Um dia, Fernando me deu uma dica: “Perguntar não adianta, porque ele não vai falar nada. Mas, se você enguiçar em algum exercício, é só entregar para o “Moscatel” que ele resolve”.

Pensei que o Fernando estava brincando. Mas não estava. Dois dias depois empaquei com um problema de geometria analítica, proposto por um livro americano. Entreguei para o “Moscatel” livro, caneta e um bloco de papel. Pela primeira vez o vi proferir uma palavra diferente de “Prá Fernando, prá Eurídice”. Essa palavra foi “elementar”. Que ele repetia sem parar enquanto resolvia o problema. Com incrível rapidez e precisão.

Isso durou o ano inteiro. Quase fiquei surdo de tanto ouvir “elementar”, “elementar”.

Vou morrer sem matar essa charada. Qual seria a história do “Moscatel”? Que estudos ele fez? Trabalhou? Tinha família? O que determinou seu alheamento?

Fui morar no Leblon. Anos depois fiz uma visita à minha antiga rua. Em busca de gente para jogar uma conversa fora. Fiquei sabendo que o “Moscatel” havia sumido.


A Miss

Com dezoito anos comecei a achar que cerveja, afinal, não era uma coisa tão ruim assim. Mais amarga do que a Coca Cola, o Guaraná ou o Grapette, ainda assim ela começou a ganhar posições no meu hit parade. E depois de algum tempo, domingos de praia com sol de maçarico acabaram por conduzir a “loura” ao primeiro lugar na parada de sucessos.

Fiz, ainda, outra descoberta importante. Não era imprescindível a presença do sol para se tomar cerveja. Também à noite seu gosto era muito bom. Comemorando essa descoberta, comecei a acampar num pé sujo que ficava numa esquina de República do Peru com Barata Ribeiro. Era um lugar luxuoso. Para sentar, tínhamos à nossa disposição os barris de alumínio que acondicionavam o excelente chopp que o estabelecimento servia.

Meus companheiros de bar, bem mais velhos, não eram citados na coluna social do Ibrahim Sued. Destaque para uma francesa, queimadíssima de sol, sotaque bastante carregado. Devia ter algo entre 50 e 60 anos. Com todas as vicissitudes que a vida lhe havia imposto, ainda assim eu acreditava que ela poderia ter sido uma mulher muito bonita.

Marie, esse era o seu nome, falava pelos cotovelos. Contava mil histórias, mencionava romances com personalidades do grand monde, viagens mirabolantes. Ninguém prestava muita atenção à sua conversa, considerando que certamente ela era turbinada por sua exemplar capacidade de beber cerveja.

Até que chegou o dia em que vi meus colegas de bar incomodados. Foi na noite em que Marie mencionou sua participação relevante em concursos de beleza promovidos na Europa. O pessoal achou que era demais. Nossa amiga havia passado dos limites.

Maliciosamente, ela deixou que todos os seus críticos manifestassem sua incredulidade. E até mesmo seu desconforto diante de relatos, tudo indicava, desprovidos de fundamento.

Quando os protestos chegaram ao seu nível máximo, Marie pediu licença: “Volto já...”. Ela morava perto, retornou em cinco minutos. Carregada de álbuns de fotografias. Eles continham coberturas e punhados de fotos dos concursos de beleza que ela havia vencido. Inclusive o de Miss França. Sua carreira de modelo também estava ali fartamente documentada.

De queixo caído, ninguém pediu desculpas. Mas queriam, a todo custo, saber que caminhos tortuosos uma mulher tão especial havia trilhado para acabar ali, em tão más companhias.


Ela se recusou a responder.