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segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

3082 - Animal Planet



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5342 SX                           Data: 11 de dezembro de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXV


RICARDO ZANELLI


Acontece com alguma frequência. Convivemos com pessoas que julgamos conhecer bem e, de repente, não mais que de repente, somos surpreendidos com informações sobre sua trajetória de vida, sua biografia, para nós inteiramente desconhecidas, dignas de espanto.

Nesse quesito Paulo Fortes, meu pai, era campeão. Em certa ocasião, na década de 50, foi apresentado a um cidadão alto, muito elegante, super educado, que participava da organização da temporada lírica do Teatro Municipal de São Paulo. Ficaram muito amigos. Tempo suficiente para o barítono descobrir que Oscar Nascimento, o promotor de óperas, fora goleiro e ídolo do Palmeiras e do Fluminense nos anos 30 e 40, chegando a defender a meta da seleção brasileira. Seu filho integrou a seleção nacional de basquetebol. Sua filha, a equipe brasileira de voleibol. Que família, não é mesmo?

Ainda falando de Paulo Fortes. Tinha como colega, no Municipal do Rio, um tenor que cantava pequenos papéis. Seu nome era Nino Crimi. Foi, durante três décadas, o tenor comprimário mais atuante no Municipal do Rio. Não se aventurava a cantar primeiros papéis. Um dia a revelação bombástica chegou ao conhecimento de meu pai: Nino Crimi era filho de Giulio Crimi, um dos mais importantes tenores da cena lírica mundial, rival de Enrico Caruso, também ele uma grande estrela do Metropolitan Opera House de Nova Iorque. Nunca me ocorreu indagar de meu pai as circunstâncias, certamente bastante especiais, que conduziram o obscuro Nino Crimi a se radicar no Rio de Janeiro.

Como não gosto de ficar para trás, também tenho algo no gênero a contar. Durante meu curso na Faculdade Nacional de Economia desenvolvi uma boa amizade com Edgar da Silva Ramos, sujeito muito educado e classudo, excelente conversa. Levei algum tempo para descobrir que seu pai era o piloto Hermano da Silva Ramos, o "Nanô", um dos primeiros brasileiros a ingressar no restrito mundo da Fórmula 1.

Imagino que não tenha sido diferente com Ricardo Zanelli o personagem da nossa crônica de hoje. Certamente devia chamar a atenção aquele cidadão que circulava por Ipanema com uma ave, um corrupião, no bolso. "Chico", o corrupião, não tinha as asas cortadas. Dava longos passeios, sempre retornando ao bolso de Zanelli. De vez em quando botava a cabeça para fora do bolso, possivelmente para conferir se o percurso cumprido por seu dono era o habitual. Tremenda atração, como se vê.

Zanelli também causava espanto nos hospitais, clínicas e consultórios que visitava na sua condição de propagandista-médico. Trabalhou por muitos anos no Laboratório Merck. Onde quer que fosse, juntava gente, médicos, enfermeiras e pacientes para discorrer, sobre os produtos que divulgava, nos oito idiomas que falava fluentemente. Todos percebiam que não estavam diante de um cidadão comum. Ele tinha muitas histórias para contar. É o que vamos tentar fazer a partir de agora.

Nosso personagem nasceu em Draguccio, no Friuli, nordeste da Italia, em 26 de março de 1903. O Friuli então pertencia ao Império Austro-Húngaro. Suas escolas ensinavam, além do italiano, também o alemão e o húngaro. Sua mãe era croata. Por conta disso, aos dez anos de idade, falava indistintamente os quatro idiomas. Em função de sua trajetória de vida bastante agitada, esse acervo ainda viria a crescer mais tarde.

Era um verdadeiro atleta. Excepcional nadador e corredor. Cedo percebeu que Draguccio era muito pequena para comportar suas ambições. Foi para Roma em busca de uma vaga no Corpo de Carabineiros Reais. Foi aprovado em dificílimas provas físicas, culturais e psicotécnicas. Aos 24 anos alcançou o posto de Tenente.

À época, a Itália vivia uma fase de transição de poder entre o Rei Vittorio Emmanuele e uma liderança que havia despontado trazendo uma Nova Ordem, o Fascismo. Seu ideal era representado por um feixe (fascio, em italiano) de varetas amarradas em volta de um machado, significando que, todas elas juntas, superavam o poder do machado. Individualmente, o machado as cortaria, uma a uma, sem dificuldades. Resumindo, "A união faz a força."

Benito Mussolini, "Il Duce" (o que conduz), manobrava a situação, fazendo do Rei uma figura decorativa. A Itália estava sendo dirigida com mãos de ferro. Havia alcançado algumas conquistas em termos de organização, mas a liberdade de expressão e de ir-e-vir estava drasticamente comprometida. Crescia a olhos vistos o culto à personalidade de Benito Mussolini.

No Corpo de Carabineiros Reais, fiéis ao monarca, esses acontecimentos não repercutiam de maneira satisfatória. Os oficiais superiores iniciaram um movimento com o intuito de derrubar a liderança fascista e restabelecer o poder real. Foram denunciados e presos, juntamente com os simpatizantes de sua iniciativa. Entre eles, Ricardo Zanelli.

Tentando adiar uma decisão definitiva por parte das autoridades, o pai do Tenente contratou um advogado que, através de hábeis argumentos legais, conseguiu autorização para que o réu fosse visitar sua família, no Friuli. Lá chegando, ele driblou a escolta militar e escapou pela fronteira com a então Iugoslávia. Começava aí uma saga que só terminaria 53 anos mais tarde, no Rio de Janeiro.

Solto no mundo, sem documentos, dinheiro ou bagagem, nosso herói encontrou uma maneira de fazer prevalecer sua condição atlética invejável. Depois de um razoável período de treinamento, foi admitido num circo iugoslavo como trapezista e contorcionista. A experiência, no entanto, não durou muito. Algumas cidades visitadas pelo circo definitivamente não atraiam nosso personagem.

Sem destino certo, o Tenente chegou à Grécia. No porto de Pireus, conseguiu emprego num navio cargueiro que se dirigia à Turquia. Não sabia que o navio levava armamento clandestino para ajudar rebeldes que estavam em luta contra o governo turco. Foi preso, junto com os demais tripulantes. Permaneceu seis meses na prisão, sendo libertado quando as autoridades chegaram à conclusão de que ele havia embarcado sem conhecimento dos propósitos do navio. Solto, recebeu uma passagem para Constantinopla, onde chegou ao anoitecer, sem conhecer ninguém e sem ter onde dormir.

Não morreu de fome graças a um cachorro. Não era um cachorro comum. Tinha enorme talento para roubar linguiças que permaneciam expostas nas quitandas da cidade. Ricardo seguia o cachorro. Este comia até se satisfazer. O que sobrava era mais do que suficiente para aplacar a fome do Tenente.

Andando, sem destino, um belo dia ele chegou à frente de um bordel, em que foi admitido como faxineiro. Em troca dos seus serviços, teria casa e comida. A sorte lhe sorriu quando um sujeito embriagado se meteu numa briga tremenda, apanhou muito e foi jogado numa poça de lama. Foi socorrido por Ricardo. Era um empresário búlgaro muito rico. Possuía plantações de rosas e visitava com frequência a Turquia para negociar com fabricantes de perfumes. Indagou de Ricardo: "Você está disposto a trabalhar para mim? Despeça-se do seu patrão e venha comigo." Saíram à rua, foram a uma loja onde o búlgaro o presenteou com roupas, sapatos e uma mala de viagem.

Esse poderia ter sido o início de uma história feliz. Tudo que o cidadão búlgaro declarou era verdade. Ricardo viu-se diante de imensas plantações de rosas. Rosas a perder de vista, que exalavam um aroma fortíssimo. Com três meses de trabalho Ricardo foi vencido pelo enjoo causado pelo perfume.

Pediu demissão. Foi para a Romênia, trabalhar numa região petrolífera que já abrigava muitos italianos. Ali permaneceu alguns meses. Irrequieto, resolveu conhecer a Transilvânia, onde foi trabalhar no castelo de um conde. A nova ocupação também não durou muito. O motivo? Problemas com a mulher do conde, que o assediava de todas as maneiras. Ele resistia de todo jeito. Mas o próprio conde, que conhecia bem sua cara metade, deu-lhe uma boa quantia em dinheiro, pedindo-lhe que fosse para bem longe de sua mulher. Dela ele tinha muito ciúme, e sabia que era louca por homens jovens e bonitos.

Ricardo seguiu, então, em direção à Polônia, atravessando a Hungria e, naquele tempo, a Checoslováquia. Numa cidadezinha fronteiriça com a Rússia saiu a passear, chegando a uma praça onde um lutador de luta-livre se exibia desafiando os homens da plateia. Aquele que resistisse mais tempo ganharia um prêmio. Um a um, os que aceitavam o desafio, iam caindo. Até que Ricardo resolveu subir ao ringue. Já foi dito que ele era muito forte. Resultado: Zanelli derrubou o lutador profissional! A plateia, julgando que aquilo havia sido combinado, aplicou uma surra nos dois. A solução foi sair correndo. A partir daí, os dois contendores ficaram amigos.

Sem esquecer os problemas sérios que havia enfrentado num regime de direita, o fascismo italiano, nosso herói imaginou que a Rússia comunista poderia ser um contraponto ideal. Informou-se sobre a localização da fronteira da Polônia com a Rússia e para lá caminhou durante muitas horas, em meio a um tremendo temporal. Pois foi esse temporal que lhe permitiu atravessar a fronteira, repleta de fossos de lama, arame farpado e sentinelas em guaritas a intervalos regulares. O vento sacudia as cercas, o que provocava fortes faíscas elétricas. Os guardas, temendo um problema maior, desligaram a corrente. Com isso Ricardo conseguiu se esgueirar por baixo da cerca e alcançar o lado soviético.

Andou por toda a noite até perceber que estava acompanhando uma linha de trem. Depois de uma boa caminhada, alguns casebres apareceram. Numa estação próxima um trem estava sendo carregado com toras de madeira. Seu destino era Moscou. Escondeu-se por entre as toras. Viajou por um dia e uma noite, até chegar à capital russa. Logo foi descoberto e era isso o que ele queria.

Foi levado à presença de um oficial do Exército Vermelho que falava italiano e o interrogou longamente. Contou-lhe sobre sua fuga da Itália, sobre tudo o que passara e sobre o seu desejo de trabalhar na Rússia, onde sabia que tinha vários compatriotas. O oficial mostrou-se muito amistoso e o aconselhou a não comentar ter sido oficial militar na Itália, para evitar desconfianças. Disse que se chamava Rupert Bielov. Por que falava tão bem italiano? O motivo era simples: ele era italiano! Casado com uma russa, tinha filhos russos. Seu verdadeiro nome, Roberto Bianco, fora devidamente traduzido para Rupert Bielov.

Ricardo foi destacado para trabalhar numa fábrica de guarda-chuvas. Trabalhou durante meses, cumprindo uma rotina imutável. Novidades só quando, em direção ao trabalho, passava ao lado de um muro muito alto, ouvindo, por vezes, o sinistro barulho dos tiros de uma metralhadora. De seus companheiros de trabalho escutava sempre a recomendação : "Você não ouviu nada!"

A conclusão de que precisava dar por encerrada aquela jornada aconteceu no dia em que ele e seus colegas foram convocados a assistir à execução de um funcionário búlgaro, acusado de traição. Bielov, o "chefe”, já havia chegado à conclusão de que era impossível "doutrinar" Ricardo Zanelli. Um dia chamou-o para comunicar que estava incluído num grupo de operários que fariam uma excursão-prêmio a Leningrado. Disse: "Sei que se você tiver oportunidade de fugir você o fará. Mas lembre-se de que, se for apanhado, e insinuar que eu lhe dei a ideia, naturalmente negarei tudo e sua palavra nada valerá contra a minha. Em voz baixa, acrescentou : "De certo modo, chego a invejar você." Desejou felicidades e apertaram-se as mãos em despedida.

Durou dois dias a viagem de trem para a atual São Petersburgo. Ali visitaram os vários palácios transformados em museus após a revolução bolchevique de 1917. Visitados todos os pontos programados, o capataz que acompanhava o grupo informou: "Ainda temos dois dias à nossa disposição. Foi-nos oferecida uma visita a Helsinki, na Finlândia. "Querem ir?" Todos aceitaram.

Em Helsinki, aconteceu a fuga de Ricardo. Numa noite muito fria, o grupo decidiu entrar num café para gastar os poucos rublos que tinham em mãos. Ele observou uma porta, nos fundos, que dava para a rua. Pediu licença para ir ao banheiro e saiu sorrateiramente pela tal porta, ganhando a rua e a liberdade. Na noite seguinte certificou-se de que seu grupo já havia partido de volta a Leningrado sem que ninguém reclamasse sua falta. Com a ajuda de um policial finlandês, embarcou num navio que se destinava a Hamburgo. Dominava o alemão e tinha esperança de lá conseguir emprego.

No porto de Hamburgo, mudou seus planos. Lá estava atracado o navio brasileiro "Almirante Alexandrino" que partiria no dia seguinte para o Brasil. Ricardo planejou entrar às escondidas no navio e vir para o Brasil, onde já vivia seu irmão mais velho. Foi o que fez. No dia seguinte, ainda escuro, gelado, subiu pela corda de amarração, entrou no navio e se escondeu num escaler. Logo em seguida o "Alexandrino" emitiu seus últimos apitos e zarpou.

Dentro do bote havia água e biscoitos, mas insuficientes para aguentar tantos dias de viagem. Além disso, havia a posição incômoda e o frio terrível. Aos poucos foi perdendo as forças e desmaiou. Quando recobrou os sentidos estava na enfermaria do navio. Fora considerado morto, mas conseguiram reanimá-lo. Revelou sua intenção de vir para o Brasil mas a Lei pensa diferente. No primeiro porto da escala, Lisboa, foi entregue à polícia marítima de Portugal. Ali ficou determinado que ele deveria ser reconduzido a Hamburgo, seu porto de origem. Bordeaux, na França, foi a primeira escala do navio em que viajou preso, severamente vigiado. Ainda assim conseguiu empreender uma nova fuga, tomando um trem em direção a Paris.

Na capital francesa foi ajudado pela sorte. Um taxista italiano o conduziu até a Associação dos Refugiados Políticos Italianos, onde foi devidamente amparado. Até mesmo um bom emprego lhe foi providenciado, no setor de caldeiras de uma grande fábrica. Serviço árduo e muito perigoso.

Passaram-se os anos, Ricardo reorganizou sua vida, conheceu uma moça com quem iniciou um romance, passou a viver como um parisiense. Dessa época uma lembrança que o marcou profundamente foi a primeira apresentação do "Bolero", sob a regência de seu autor, Maurice Ravel, que ele teve a especial oportunidade de assistir.

Tudo parecia correr bem, até que um fato novo aconteceu. Ricardo passara a comprador da fábrica e o governo francês, tomando conhecimento do alto salário que ele recebia, decidiu que aquele cargo somente poderia ser ocupado por cidadão francês ou estrangeiro naturalizado. Ricardo admitiu a segunda hipótese, mas na embaixada italiana defrontou-se com a antipatia do embaixador italiano, fascista, que sugeriu seu retorno à Itália para reassumir seu posto de Tenente Carabineiro. Tal providência, Ricardo sabia, implicaria em retaliações e até mesmo tortura. Recusou essa orientação, evidentemente. Sem alternativa, o patrão francês de Ricardo indenizou-o generosamente. Abraçaram-se e se despediram.

Com dinheiro no bolso, mas desempregado, restava a Ricardo empreender nova tentativa de vinda para o Brasil. Com esse intento tomou um navio em direção a Lisboa. Também conheceu o Porto. Nas duas cidades assistiu a jogos do Vasco da Gama, que estava em excursão pela Europa. O Vasco venceu seus jogos, sob aplausos dos portugueses. O ano era 1933, Foi quando Ricardo Zanelli se tornou vascaíno.

O navio que conduziu nosso herói ao Brasil aportou na Praça Mauá em novembro de 1933. Seu irmão Vittorio o esperava no cais. Foram para a Tijuca, onde ele morava, com a esposa e um casal de filhos. Ricardo resolveu aprender português por conta própria. Comprou dois livros importantes da nossa literatura: "Os Sertões" e "Casa Grande e Senzala". Leu os dois livros munido de um dicionário. Saía sozinho, para fazer longas caminhadas. Chegou a ir a pé da Tijuca ao Leblon, passando pelo centro da cidade. Conhecia gente, fazia amizades, ia à praia, aos cinemas, aos bares, conversava com desconhecidos. Em menos de um ano falava perfeitamente nosso idioma.

Por influência de seu irmão, químico industrial na Bayer, foi admitido na Companhia Química Merck Brasil S. A. Começou no almoxarifado, mas logo passou a trabalhar como propagandista-vendedor. Sua carreira na Merck se estendeu por 26 anos, sendo desenvolvida em São Paulo, Bahia, Sergipe, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Ricardo Zanelli morreu no dia 10 de maio de 1980, aos 77 anos. Um estrangeiro que amou profundamente o Brasil. Que chorou copiosamente na final da Copa do Mundo de 1950. Motivo de permanente orgulho e saudade para seu filho Luciano Zanelli, meu querido amigo, que me repassou todas essas informações. Elas enriquecem, tenho certeza, o nosso "O Biscoito Molhado".



segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

3081 - Boas intenções, promessas e afins



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5341 FM                           Data: 04 de dezembro de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXV


          O VELHO PINHEIRO           
(Boas Festas e Feliz Ano Novo)

                         
 Eis uma breve história que a ninguém deve interessar, senão a mim mesmo, pelas lembranças. Coisa simples, nada emocionante, nada a se perder, caso não seja contada. É sobre um já envelhecido pinheiro de mentirinha, que todo fim de ano é armado com carinho e o devido cuidado, para se transformar em imponente Árvore de Natal, tudo feito com um pouco de desvelo, como se a operação fosse a primeira, de há 40 anos.

História banal deste nosso pinheiro quarentão, que guarda muitos dos nossos sonhos, jamais tornados realidade, desfeitos pelas nuvens do tempo, está vivo, diante dos nossos cansados olhos, resistindo como árvore legítima açoitada por ventos tempestuosos. Está rijo e forte, teimosamente, como somos nós, que também teimosamente  resistimos   e fazemos dele, todo fim de ano, parte da nossa festa, alimentando nossos desejos. Não mais os impetuosos sonhados em outros tempos, que ficaram para trás, deram lugar a outros, menos inalcançáveis, mesmo assim, distantes de serem transformados em realidade.

Está ali, a um canto, a nossa envelhecida árvore-símbolo, contando, em silêncio, a sua própria história, que é a nossa, de nossas crianças, hoje transformadas em adultos, donos dos seus próprios destinos, sonhando seus próprios sonhos, alimentando seus próprios desejos, ainda irrealizados. Vão chegando, olham, dizem desinteressados: “Ainda está aí?”

Para nós está, como sempre esteve, neste natal e não sei em quantos outros mais. Enquanto pudermos, estaremos resistindo, como o velho pinheiro de mentirinha, mesmo sem o brilho original, e já um tanto empoeirado. As bolas coloridas são as mesmas, quase todas, as que se quebraram foram substituídas por outras, de isopor, inquebráveis, modernas mas sem brilho natalino; a neve dourada já perdeu alguns de seus flocos, as lâmpadas coloridas ainda piscam, algumas queimaram, foram substituídas, outras vão apagando e lá ficam, sem luz, entre o pisca-pisca das que teimosamente resistem ao tempo.

Como ele, suportamos as mentiras da vida; como ele, continuamos atravessando o tempo. Diante dele, em silêncio, rememoramos o passado, pois um pouco de nossas vidas está ali, entre fitas de papel e bolas coloridas, neve dourada, pequenos anjos de metal, estrelas reluzentes e lâmpadas piscando.  Até quando?
Saber é difícil, queremos que seja para sempre ou até que a serra elétrica do destino faça-o em pedaços, transforme seus enfeites em nada, tudo se dilua como se diluíram nossos sonhos, e amanheça sem vida  numa lata de lixo.

Por enquanto, aguardamos o passar do tempo, nossa velha e estimada  árvore de natal continua ali,  no canto da sala, brilhando de luzes,  alimentando sonhos,  fazendo  de conta que  “tudo vale a pena, se a alma não é pequena”, como disse o poeta.
   
     ANO NOVO, VIDA NOVA.  Eis o mote de sempre: Ano novo, Vida Nova. Não nos cansamos de ter esperanças, exageramos nas preces, nos cumprimentos, esbanjamos votos de felicidades, entre parentes,  amigos e conhecidos. E isso não basta, sabemos, mas não nos custa desejar... e esperar. Ao mesmo tempo, fazemos um pouco de reflexão, examinamo-nos por dentro, enquanto por fora, vemos um passado de saldo negativo - não podemos esquecer a tragédia americana  no Iraque, os Talibãs, Cazaquistão, Paquistão, terrorismo avassalador, atitudes desumanas, ceifando vidas; Trump ameaçando destruir a Coreia Norte, uma insanidade. Na África, a fome, revoltas, refugiados aos milhares, as desigualdades  sociais não encontram solução, persiste o desenfreado desejo de consumismo, o mundo globalizado não se empenha em agir, e a pergunta angustiante é: até quando? Por aqui, a falta de vergonha se institucionalizou, a Operação Lava-Jato continua  revelando  os canalhas da propina, e sendo veladamente ameaçada de desaparecer. O individualismo, o desrespeito, a falta de ética e se pergunta: até quando? Para uns, persiste o choque entre materialismo e a fé religiosa, para outros o espírito humanista liberta e dignifica.  A ciência intervém, contribuindo para o bem das pessoas, a solidariedade é parte de uma convicção moral, uma prova de que nem tudo está perdido. Neste começo de ano que se avizinha, também nós, em poucas palavras, manifestamos nossos desejos de paz e de que não se repitam os desmandos, as mentiras, os atos que tanto nos envergonham, como cidadãos. Pois que este seja um ano novo em todos os sentidos.  Para  todos. Feliz 2018!



terça-feira, 28 de novembro de 2017

3080 - Balas, esmalte e perfume



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5340 WM                           Data: 28 de novembro de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXV


NOVA MULHER, MESMA MULHER

Aconteceu uma coisa bem estranha comigo na semana retrasada. Era uma quarta-feira, às quatro da tarde. Pedi um Uber para ir ao dentista e vi a placa do meu carro no aplicativo. O modelo também era o mesmo que o meu, um Peugeot 208, que comprei parcelado em 48 vezes. Carro bom, quase não fazia barulho. Achei que tinham clonado a minha placa, ou algo parecido.

Esperei o safado chegar, já cheio de autoridade, pensando em como enquadrar o golpista. “Golpista safado!” – pensei em voz alta. Tinha no Whatsapp o contato de um amigo que conhecia um delegado notório por ser chapa-quente. Cinquenta mangos e o cara levaria o larápio para dar uma voltinha antes de entrar na delegacia.

E aí chegou o carro. Era o meu carro. O Peugeot 208 vermelho. E pasmem, era a minha mulher ao volante.

Fiquei p. de vida! Já fui entrando no banco do carona cheio da razão e ela fez sinal que não, que era para eu entrar no banco de trás. Resolvi acatar.

- Roberta, que p. é essa? – foram minhas primeiras palavras.

- O senhor aceita uma água? – respondeu minha esposa calma e toda soberana. Ela estava chique, com uma camisa social preta e as unhas pintadas de marrom.

- Que porra de água que nada, quero saber é que você está fazendo no meu carro.

- Nosso carro. A temperatura está agradável?

- Dane-se a temperatura, Roberta. Que raios você está fazendo?

- Estou apenas fazendo meu trabalho: motorista do Uber. Aceita uma água?

Resolvi aceitar a água para me acalmar.

- O senhor aceita uma bala? Tem aí umas disponíveis no vão embaixo da maçaneta da porta. – perguntou Roberta toda empoderada.

- Isso vai dar formiga no carro, Roberta. Não quero droga de bala nenhuma.

- São balas 7 Belo. Pega umazinha. Sei que você gosta.

Peguei a porra da bala. Adoro 7 Belo. Enquanto eu mastigava, observei a Roberta dirigindo toda plena e cheia de si. Fui me acalmando. Resolvi perguntar:

- Desde quando você começou no Uber?

- Desde semana passada.

- E por que você não me avisou nada?

- Te avisei, mas você não me deu atenção.

- Como não dei atenção? – perguntei intrigado.

- Acho que estava passando algum jogo de Vasco.

- Mas Roberta, você tem que me contar as coisas logo durante o jogo do Vascão? Você sabe que as coisas estão difíceis e que estamos brigando pra não cairmos de novo... Tenho que estar lá, Roberta. Concentrado. Firme e forte fazendo mandinga pra continuarmos na primeira divisão.

- Tudo bem.

E aí eu comecei a reparar em como a Roberta dirigia bem, com calma e com cuidado. Reparei até na maneira delicada como ela segurava o volante, sem fazer muita pressão. As unhas marrons estavam impecáveis e combinavam com o couro preto que revestia a direção.

- Não sabia que você dirigia assim tão bem, meu amor.

- Obrigada. – Disse ela com uma voz suave.

Reparei também no cabelo dela, tão macio. Acho que nunca tinha observado minha esposa daquele ângulo com a visão do passageiro no banco de trás. Ela ligou o som, colocou baixinho uma música do Skank. Era aquela que falava da Jackie Tequila, leite de leoa. Ótima música.

Comecei a curtir aquela viagem. Ar condicionado, Jack Tequila, o perfume doce da Roberta, aquela velocidade que não passava dos sessenta por hora... e quando menos percebi, chegamos ao meu destino. Comi mais uma 7 Belo e escutei aquela vozinha meiga.

- Chegamos, muito obrigada pela preferência e tenha uma boa consulta.

- Obrigado amor, nos vemos mais tarde em casa, tá? Vou cozinhar um fricassé de frango pra quando você chegar.

Acreditem ou não... Naquele dia me apaixonei perdidamente pela Roberta, minha esposa.


sexta-feira, 24 de novembro de 2017

3079 - Fui porque vim



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5339 FM                           Data: 24 de novembro de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXV

“ORIGEM” - QUEM SOMOS?
PARA ONDE VAMOS?
Eis mais um livro que terá, como os anteriores, um grande êxito, pois seu autor, o norte-americano de 53 anos Dan Brown, pela história, deverá causar mais polêmica do que houve com  “O código da Vinci”, que vendeu mais de 80 milhões de exemplares e provocou desentendimentos com o Vaticano, ao dizer que Jesus teria criado uma família com Maria Madalena. Neste agora, “Origem”, lançado em outubro na Feira de Frankfurt, Alemanha,  Brown certamente abrirá nova frente de debate com a Igreja, pois afirma que Deus está com os dias contados. Diz ele que a necessidade de um ser superior desaparecerá com a evolução da ciência. “Nós vamos começar a encontrar experiências espirituais por meio da conexão com o outro. Nossa necessidade de um deus exterior que nos julgue vai diminuir e, inevitavelmente, desaparecerá”, afirma o escritor Dan Brown, para quem, o desenvolvimento da inteligência artificial pode transformar o conceito divino.
A história se passa na Espanha, país em que o autor viveu parte de sua adolescência. Percorre o Mosteiro de Montserrat, a Casa Milá (monumento arquitetônico de Gaudi) e a Sagrada Família, em Barcelona, o Museu de Bilbao, o Palácio Real de Madri e a Catedral de Sevilha. Começa criando uma polêmica, com uma música religiosa diferente. Em vez de pedir ajuda a Deus, a Jesus ou aos anjos, exalta Charles Darwin, citando trechos do livro “A origem das espécies” (São evidências abundantes da evolução das espécies, mostrando que a diversidade biológica é o resultado de um processo de descendência com modificação, onde os organismos vivos se adaptam gradualmente através da seleção natural e as espécies se ramificam sucessivamente a partir de formas ancestrais. A proposta de Darwin contradiz a crença religiosa da criação divina, tal como é apresentada na Bíblia). Dan Brown Criou personagens de religiões diferentes, com muitos cristãos, muçulmanos e judeus, afirmando ser importante que as pessoas   entendam que nossas religiões são mais parecidas do que diferentes e isso ocorre desde que apareceram a linguagem e a comunicação.
Nesse sétimo livro (cinco dos quais com o mesmo personagem), volta Robert Landon, o famoso professor de Iconografia Religiosa e Simbologia, da Universidade de Harvard, que chega ao ultramoderno Museu Guggenheim, de Bilbao, convidado para assistir a uma apresentação sobre uma grande descoberta, promovida por Edmond Kirsch, seu amigo de 40 anos, bilionário que se tornou mundialmente conhecido por suas previsões audaciosas e invenções de alta tecnologia. Um dos primeiros alunos de Langdon em Harvard, há 20 anos, agora está prestes a revelar uma incrível revolução no conhecimento – uma grande descoberta que promete “mudar para sempre o papel da ciência”, algo que vai responder a duas perguntas fundamentais da existência humana.
Os convidados ficam hipnotizados pela apresentação, porém Langdon logo percebe que ela será muito mais controversa do que poderia imaginar. De repente, a noite, meticulosamente orquestrada, se transforma num caos e a preciosa descoberta de Kirsch corre o risco de se perder para sempre. Diante de uma ameaça iminente, Langdon tenta uma desesperada fuga de Bilbao, ao lado de Ambra Vidal, a elegante diretora do Museu Guggenheim, que trabalhou na montagem do evento. Juntos, seguem para Barcelona à procura de uma senha que possa ajudar a desvendar o segredo de Edmond Kirsch. Em meio a fatos históricos ocultos e extremismos religiosos, Robert e Ambra precisam escapar de um inimigo atormentado, cujo poder de saber tudo, parece emanar do Palácio Real da Espanha. Alguém que não hesitará diante de nada para silenciar o futurólogo. Numa jornada marcada por obras de arte moderna e símbolos  enigmáticos,  os dois encontram pistas que vão deixá-los cara a cara com a chocante revelação de Kirsch e com a verdade espantosa que ignoramos, por muito tempo: a origem do homem e qual o seu destino – de onde viemos e para onde vamos. A confusão toda é que a revelação desse segredo promete destruir religiões.


domingo, 19 de novembro de 2017

3078 - ursinhos de pelúcia



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5338 D                          Data: 19 de novembro de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXV


FI-LHO-DA-PU-TA!


Heloísa não desconversou: -Aí eu congelei. 

As razões do congelamento intelectual derivam da surpresa, ou de um conjunto de surpresas e são impossíveis de controlar.

O homem chamava-se Drury, não tinha qualquer traço estrangeiro, ao contrário, era completamente carioca, quem o batizou devia gostar do uísque. Estivera sentado em um círculo de mulheres sorridentes e gargalhantes, e suas pernas trançadas sugeriam uma atitude nada máscula. A calça justa, branca e a fivela do cinto ligeiramente espalhafatosa pareciam confirmar essa primeira impressão.

O sussurro no ouvido de Heloísa foi mesmo inesperado. Era quente, vaporoso, mas não úmido, e tinha não um sotaque, mas um pronunciar gutural. Para quem tinha se apaixonado por fonética, vendo Rex Harrison nos primeiros movimentos de My Fair Lady, era impossível não perceber aquele farfalhar grave, solene, notável apenas em certos encontros consonantais.

Só faltava um peteleco para o encontro total.

Nem demoraram mais na festa, como em um piquenique, saíram sorrindo a pé pela Oswaldo Cruz até o prédio do homem, nem grandioso, nem mixuruca. A porta aberta dava para um visual meio enluarado do granito do Pão de Açúcar, visível entre árvores, numa dessas raras combinações de luz e sombra que as vistas do Rio de Janeiro preparam para embalar os sonhos mais fantasiosos.

Drury foi pegar uma bebida e Helô sentou no sofá imaculado, entre simétricas almofadas de seda, todas com um bico achatado na parte superior, como se esperassem uma régua para alinhá-las. O homem era um decorador de tudo, exterior, interior, fonética. Em frente ao sofá, uma mesa com tampo de vidro escuro e de forma irregular, continha uma meia dúzia de livros, bem dispostos e de vários tamanhos, mas um se destacava, pela cor de um azul muito escuro, pela capa dura e por estar meio escondido.

O primeiro é sempre o que está por baixo. Helô pegou o livro da capa azul, onde se lia CARTOONS!, assim, com exclamação, como o título desta história.

Voando em desenho meticuloso, estavam dois gansos em ato sexual e abaixo, o conhecido dito Fly United, da United Airlines. Aquilo era bem achado e seria impossível não seguir livro adiante.

As folhas não eram impressas no verso e poderiam ir decorar qualquer parede onde não houvesse uma exagerada repressão de costumes.

Na segunda página, uma Margarida com véu de odalisca fumava ópio de um narguilé, enquanto João Bafodeonça, de camiseta, fazia com as mãos um sinal de paciência aos comparsas: “ela ainda não está no ponto...”

Depois, Branca de Neve dobrava sua saia comprida para pendurá-la nos pequenos cabides do anões, cuja canção vinha pela janela, ...pra casa agora eu vou...

Página virada, um cenário de caubói, Tonto algema Dale Evans de braços e pernas abertas, enquanto Zorro venda a vista de Roy Rogers dizendo: "melhor você não ver!"

Sininho, imaculada de meia arrastão e asinhas, desabotoa a fivela das calças vermelhas do Capitão Gancho e dialoga: “comigo aqui, você não se machuca”, uma óbvia referência à dificuldade de se manusear fivelas e botões com um gancho afiado. Adiante, o único nu frontal, a clássica cena do acidente de Jessica Rabbit, em que os desenhistas da Disney, insatisfeitos com o salário, a colocaram sem calcinha, enquanto rodava pelo ar. Três anos depois, a cena se tornaria um caso de sucesso entre os adolescentes de todo o mundo, munidos de vídeo cassetes e pause.

Tudo assim, sugerido, mas sem grosseria, parecia decifrar Drury, seus fonemas, sua calça justa, seu jeitão nada ameaçador.

E mais Helô veria no livro, se ele não voltasse com uma garrafa de champanhe, balde e uns amendoins em lata. Enquanto a garrafa era aberta, na lata de amendoins via-se vários caracteres, no mínimo em sânscrito, que decoravam a tinta branca, dando a impressão de formar a palavra Kamasutra. Mas talvez fosse só impressão.

Que era perfeita, quadros alinhados na parede, uma cor musguenta atrás de uma TV, tudo se encaixava entre luzes indiretas e os brilhos ocasionais de uma escultura de bronze.

No caminho para o quarto, Helô ainda viu uma estante de três níveis encaixada na parede, onde quatro ursões de pelúcia repousavam na prateleira superior, uma meia dúzia de ursos ficava na prateleira do meio e na inferior, uma dúzia de mini-ursinhos.

Dentro do quarto foi uma festa. O amendoim era longo e possuía um sabor indescritível, o rótulo em forma de escudo normando da champanhe era da Pérignon e tudo somava. Helô não deixou barato e nem pra depois.

Só de relógio de pulso, minúsculo porém marcador de horas, percebeu que já era hora de terminar o prazer e de pensar na aula de amanhã, às oito, depois de uma hora de trânsito.

Drury vestiu então um robe de seda lilás com o monograma H em roxo. 

Com um sorriso estampado, Helô olhou mais uma vez para o quarto e não freou um cumprimento à performance dele e, já que ela também estava lá, arrematou: "e eu também não fui mal, não...?"

-       - Helô, você foi maravilhosa, disse, enquanto abria a porta. E, apontando para a estante do corredor: “escolha um dos ursinhos da prateleira do meio pra você”.